Mais trash impossível
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de abril de 1999
Lúcio Ribeiro Agência Folha 
Garotada barulhenta, fãs de filmes de terror adolescente que assolam as salas de cinema do planeta, silêncio agora. O professor John Carpenter, fantástico mestre de um certo cinema fantástico, está com a palavra.
Chega hoje às telas do Brasil, (ver programação na página 4) depois de já ter sido visto em 17 países, o filme Vampiros de John Carpenter (John Carpenters Vampires, no original).
Vampiros é a mais recente produção trash do diretor que foi o responsável pelo boom do escrachado cinema de horror dos anos 80, que teve consequente renascimento agora no final dos anos 90. Carpenter criou, em 1978, o precursor Halloween. O filme é o marco zero da era do cinema trash de custo mínimo, das indefectíveis sequências, do assassino serial com potencial de ídolo, da viagem da câmera subjetiva por caminhos escuros ou corredores sinistros que levava o espectador a esperar por uma coisa terrível que, se sabia, ia acontecer. Mas, com esse delicioso Vampiros, bem em meio à ressurgida onda de filmes teen sangrentos, John Carpenter inverte a mão do gênero que criou, como se falasse Garotos, a aula de hoje é...
Carpenter esquece os temas básicos de sua filmografia (o inimigo sem rosto, o ataque inexplicável, a claustrofobia). Não há no elenco de Vampiros nem sequer uma cara bonita egressa dos badalados seriados de TV.
Com uma equipe de atores outsiders (James Woods, o quarto irmão Baldwin, Daniel, e a histórica Sheryl Lee, a Laura Palmer, da série Twin Peaks), Carpenter remexe no mito clássico do vampirismo para construir um iluminado... western.
Essa história de medo com tons de comédia ilustra a briga da Igreja Católica com um discípulo de Drácula, só que o duelo tem lugar no costumeiro cenário do meio do nada americano. Um caça-vampiros (James Woods) é contratado por um sacerdote, a mando do Vaticano, para ir atrás de um vampiro mestre de 600 anos, com a cara do cantor Marilyn Manson, que depois de seguir uma trilha sangrenta pela velha Europa na Idade Média chega agora à América em sua secular busca de uma bíblica cruz negra. O símbolo religioso, uma vez encontrado, daria ao vampiro e seus discípulos o poder de caminhar sob a luz do sol. O personagem de Woods e um time de escudeiros, que inclui o canastrão cool Daniel Baldwin, seguem matando vampiros em ninhos espalhados pelo deserto. Mas os caçadores de sugadores de sangue precisam mesmo é encontrar o grande mestre, antes que o ser se livre da maldição de viver no escuro. A maneira como os vampiros são aniquilados é de uma inventividade pictórica sensacional: os caçadores atravessam o coração dos vampiros com uma estaca disparada por uma espécie de espingarda e depois arrastam as criaturas por um cabo de aço puxado por um jipe até a luz do sol, onde seus corpos pegam fogo.
O que Carpenter faz é transportar a briga Igreja x vampiro do castelo gótico para alguma região poeirenta do deserto do Novo México, com tomadas abertas típicas de um filme de Sam Peckimpah e toques de direção de Howard Hawks.
O diretor empresta do roteiro de Don Jakobys, baseado no livro Vampiros, de John Steakley, a ironia usada no filme para fazer críticas à Igreja e referências (ainda) à AIDS. Carpenter sexualiza uma simbólica cena em que o vampiro Marilyn Manson contamina com seu poder a prostituta Sheril Lee com uma mordida não no pescoço, mas sim nas coxas, em uma tomada de câmera que sugeria sexo oral. No caldeirão de situações, citações, transposições e estilo de Carpenter, Vampiros não deixa de ser irregular. Mas talvez seja sua irregularidade que torna o filme inquietante, engraçado, saboroso. E, acima de tudo, tem a assinatura do diretor cravada já no título, o que indica o quanto autoral e significativa é essa primeira incursão de Carpenter ao vampirismo.


