Há cerca de dois anos Zé Ramalho começou a preparar seu público para receber um disco que seria feito com uma intenção bem clara: a de provocar. Atento a recentes notícias e velhos vinis, foi recolhendo um repertório carregado de denúncias e indignação. Reuniu 14 músicas de diversos compositores – todos do Nordeste –, compôs outras seis e gravou o álbum ‘‘Nação Nordestina’’, recém-lançado pela BMG.
O trabalho é o mais inovador de uma carreira de quase 25 anos. Primeiro pela preocupação do cantor paraibano em tratar de temas sociais num conjunto de músicas. Segundo pelo fato de Zé Ramalho ter recorrido a antigas gravações de outros artistas para levar ao seu disco – o que é inédito em sua obra. ‘‘Passei vários meses fazendo os arranjos e procurando adaptar as canções para o meu jeito de cantar. É o que eu chamo de ramalhear’’, brinca.
Essa adaptação deu unidade aos CDs, em que composições de desconhecidos repentistas aparecem ‘‘ramalheadas’’ com outras escritas por nomes consagrados, como Geraldo Vandré e Gilberto Gil. Mas todos os artistas presentes no álbum têm a origem em comum; todos fazem parte da nação nordestina.
O disco conta com participações de Fagner, Elba Ramalho, Ivete Sangalo, Gonzaguinha, Cascabulho, Flávio José, Naná Vasconcelos e Hermeto Pascoal (que pela primeira vez toca ao lado de Zé Ramalho). ‘‘Sempre quis gravar com o Hermeto. Somente agora surgiu oportunidade’’, diz.
A seguir, a entrevista exclusiva que Zé Ramalho concedeu à Folha 2
Em 97 você lançou o ‘‘Antologia Acústica’’, com dois CDs. Agora está lançando mais um álbum duplo. Isso não dificulta um pouco a venda dos discos?
Pode dificultar sim. Mas eu não tive a pretensão de transformar o ‘‘Antologia Acústica’’ em nenhum best seller e ele vendeu 700 mil cópias. Eu gostei muito daquele formato, com caixinha e libreto. E a idéia do ‘‘Nação Nordestina’’ é muito abrangente.
Onde está essa abrangência? Nos temas? Nas melodias?
O título ‘‘Nação Nordestina’’ remete a um país. O Nordeste tem nove Estados e seria impossível levar a um disco só a produção cultural existente nos vários segmentos da região. Na verdade eu precisaria de dez álbuns duplos para falar do Norteste.
Esse é o seu disco mais político. Sua indignação com as injustiças é recente?
É recente. As injustiças sempre aconteceram, mas nunca houve tanta CPI como agora. As notícias dos telejornais me revoltam. E como esse disco traça meu compromisso com a cultura do Nordeste, ele tem a intenção de mostrar que o nordestino não fala somente de carne seca, de falta de água e de forró. Ele sabe o que está acontecendo no País.
Em seu disco há músicas, como a de Geraldo Vandré (‘‘Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores’’), que provocam o sistema político de uma época. Você está contestando o conformismo dos artistas no final do milênio?
É meu papel expor minha indignação. Como não sou político, posso fazer denúncias e até propor soluções em minhas músicas. No momento, não há ninguém fazendo isso no Brasil. Dá a impressão de que todos os compositores estão vivendo no Nirvana. Parece que tudo ficou ótimo depois que acabou a ditadura militar.
Você costuma gravar apenas composições próprias. O que o fez procurar músicas de outros compositores para trazer a esse disco?
Foi um estalo. Foi a vontade que me deu de expor coisas da minha região. Quis fugir do meu padrão de trabalho e participar da emoção de outras pessoas.
Como você chegou às músicas dos outros autores?
Passei dois anos ouvindo centenas de discos, vinis e CDs. Peguei a canção ‘‘O Meu País’’ (de Livardo Alves, Orlando Tejo e Gilvan Chaves) como referência, e tudo o que ouvia ia tentando agregar junto a essa música para criar uma sequência.
Alguma das músicas do álbum você já pensava em gravar há mais tempo?
A do Vandré. É uma música antológica, mas que carrega a cruz de estar atrelada a um momento histórico. Não há nada de Nordeste nela, mas é feita por um nordestino, o que se encaixa na proposta do disco.
O nordestino se reconhece muito em seu trabalho. Isso faz com que ele seja recebido de forma diferente no Nordeste?
Apesar de falar especificamente de uma região, minha intenção não foi fazer um disco bairrista. A estética musical está moderníssima, com samples e guitarras.
E por que a ausência da bateria?
A bateria marca uma direção na música. Sem ela eu posso lidar melhor com os arrajos. Posso incluir muito mais coisas e, com isso, ganhar brasilidade.
Em seu disco há composições de repentistas. Você tem uma pesquisa em cima do trabalho de cantadores?
Não diria pesquisa, mas convivi e aprendi muito com eles.
Todas as pessoas que você convidou para participar do disco vieram do sertão?
Eu acredito que sim. Se eles fossem da capital, sua música possivelmente não seria a mesma.
E isso trouxe um som mais puro para o disco?
Se isso não influencia o som ao menos conta a história de cada um. As músicas do segundo disco são muito voltadas ao atavismo e falam do êxodo.
Isso dá ao segundo disco um caráter autobiográfico?
Com certeza eu me identifico com tudo isso. Mas o primeiro também é um pouco autobiográfico.
Por que a alusão à capa do disco ‘‘Sargent Peppers’’ dos Beatles?
Era uma idéia que estava guardada, esperando oportunidade para ser realizada. Se encaixou bem com a proposta da ‘‘Nação Nordestina’’. Além disso, meu trabalho é muito influenciado pelos Beatles.
Onde está essa influência?
Está nos arranjos, na maneira de tocar. E isso só me enriquece. Zé Ramalho é o seguinte: você bota num caldeirão Jovem Guarda, Beatles, Bob Dylan e Pink Floyd. Aí entra Gonzagão, Jackson do Pandeiro e repentistas.
A jornalista Michele Muller viajou ao Rio de Janeiro a convite da gravadora BMG

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