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terça-feira, 08 de junho de 2004
Andréa Bordinhão<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Usar o discurso do jornalismo, da internet, dos diversos programas televisivos, da publicidade, do teatro, de músicas e até de políticos para ensinar a língua portuguesa, deixando a gramática em segundo plano. Essa é uma forma de vincular o processo de ensino à realidade social dos alunos e professores que vai ser adotada em dois dos nove livros didáticos aprovados pelo Programa Nacional de Livros Didáticos do Ministério da Educação (MEC) a serem usados nas escolas públicas em 2005.
A autora dos livros, que chamam-se ''Linguagens do Século XXI'', a pedagoga paranaense Heloisa Takazaki, diz que a idéia é aproximar os adolescentes dos textos que eles convivem no dia-a-dia. Essa prática defende o fim do aprendizado tradicional, que usa as mais variadas nomenclaturas para as regras gramaticais e textos arcaicos como contos e poesias para ensinar a língua portuguesa. ''Essa é uma forma que ensina a ler e escrever efetivamente porque o aluno precisa entender o que está escrito. Ele deixa de ser passivo e se torna mais crítico'', explica.
Esse método defende que o aprendizado das regras gramaticais se dá por meio da leitura. Para Heloisa, é perda de tempo fazer análise sintática (organização e classificação das palavras na frase). ''É preciso ler e escrever.'' Os dois livros da pedagoga são totalmente baseados em textos. ''Trabalhamos em cima do texto e da perspectiva discursiva, que é quem escreveu, porque escreveu, que argumentos usou, entre outros itens que levam a esse tipo de análise.''
Heloisa conta que muitas pessoas que estudaram, algumas que têm curso superior, inclusive, não sabem ler. São os analfabetos funcionais. Isso é, essas pessoas decodificam (sabem o significado de todas as palavras) o que estão lendo, mas não sabem analisar criticamente. O índice de analfabetos funcionais entre a população do Brasil hoje é de 67%, de acordo com a professora.
Entre os temas abordados, os livros de Heloisa trabalham muito com reportagens, linguagem televisiva e a usada na internet. Um dos capítulos do volume destinado aos alunos da 5 série do ensino fundamental explica como é feita a notícia. Mostra quais são as técnicas usadas por jornalistas para construir textos, como é montada a página de um jornal, além de discutir temas apresentados em reportagens. Com essa base, na 8 série os estudantes já podem ir mais a fundo na linha editorial dos veículos de comunicação.
''Depois de trabalhar com os alunos como é o trabalho da elaboração da notícia, podemos trabalhar as linhas editoriais dos jornais, sejam impresso, de televisão ou rádio'', conta a pedagoga. Nesse ponto, os alunos fazem uma análise mais crítica dos temas. Para isso, usa-se a comparação entre as capas de diversos jornais, verificando porque os assuntos estão ou não presentes, analisa-se o que está nas entrelinhas dos textos, além de mostrar os ''tipos'' de jornalismo, como o marrom (sensacionalista), por exemplo.
O telejornal e a telenovela ganharam capítulos específicos no livro de tanto que a linguagem televisiva permeia a vida de todos. ''Hoje, mesmo quem não assiste novela sabe o que está acontecendo na trama. Todo mundo comenta. Então os adolescentes têm que estar preparados para discernir o que estão assistindo na tevê'', afirma Heloisa. A pedagoga acredita que se os estudantes não são capazes de assistir à televisão com olhos críticos acabam aceitando os estereótipos criados com facilidade. E para ela é um dever da aula de língua portuguesa ajudá-los entender o que se passa na programação.
A pedagoga não critica a linguagem bastante coloquial e abreviada usada pelos adolescentes na internet e defende que ela deve ser estudada para que fique claro quando é hora de aplicá-la ou não. ''A linguagem usado na internet é adequada ao meio porque é informal. Não se pode ter nenhum tipo de preconceito'', acredita. ''É só saber como usá-la. É como uma roupa. Não se vai de biquíni em uma reunião, assim como não se vai de terno na praia'', comparou.
Os livros da professora trabalham diversos genêros de textos usados na internet. ''Muitos blogs (uma espécie de diário virtual) já estão até sendo lançados por editoras como livros. É preciso mostrar toda essa diversidade ao aluno'', ressalta. Além disso, Heloisa acredita que colocar a internet nos livros é uma forma de iniciar a inclusão digital de muitos alunos. Isso porque os livros são direcionados a estudantes de escolas públicas, que muitas vezes não têm acesso a computadores quanto mais à internet.


