Em ‘‘500 Anos de Folia’’, Jair Rodrigues vem lembrar a todos que é um dos maiores intérpretes da MPB. Disco foi gravado ao vivo
ReproduçãoJair Rodrigues: ‘‘Eu faço parte do anais da MPB’’

Antônio Mariano Júnior
De Londrina

Há muito tempo ele não era tratado com tanta (e merecida) dignidade. E isso partiu, vejam só, de uma gravadora de pequeno porte, no caso a Trama, que deu carta branca para Jair Rodrigues retornar aos discos com toda pompa e circunstância. Quem quiser conferir pode ir tratando de comprar seu mais recente trabalho – ‘‘500 Anos de Folia’’, gravado ao vivo. Ou melhor, gravado ‘‘100 por cento ao Vivo’’ como está escrito na capa do CD. ‘‘Alguns discos meus, gravados ao vivo, receberam maquiagem em estúdio. Isso não é correto, agora sei. Mas esse novo disco foi totalmente ao vivo mesmo’’, diz o cantor.
Ajeitadinhas à parte, o fato é: ‘‘500 Anos de Folia’’ é um disco caprichado. Gravado numa tacada só. Ou seja, no dia 28 de junho deste ano, uma segunda-feira, no Olympia, casa de shows paulistana. Das 28 canções do repertório original do espetáculo, que teve duração de 2 horas e 20 minutos, 14 foram extraídas para dar vida ao disco.
Ficaram de foras pérolas como ‘‘Luar do Sertão’’ (Catulo da Paixão Cearense), ‘‘Quem Te Viu, Quem te V꒒ (Chico Buarque) e uma música inédita de Paulo César Pinheiro (‘‘Tambores’’), entre outras. Em compensação, passaram pela peneirada outras pepitas pertencentes ao repertório do cantor – como ‘‘Disparada’’ (Geraldo Vandré-Theo de Barros), ‘‘O Conde’’ (Evaldo Gouveia-Jair Amorim), ‘‘Triste Madrugada’’ (Jorge Costa) e ‘‘Majestade o Sabiᒒ (Roberta Miranda) – e músicas gravadas e regravadas por outros tantos – ‘‘Carinhoso’’ (Pixinguinha-João de Barro) e ‘‘Marcha de Quarta-Feira de Cinzas’’ (Carlos Lyra-Vinicius de Moraes), só para citar algumas.
Inéditas, duas. E duas belas canções. A primeira ‘‘Morena Paulista’’ (Jairzinho de Oliveira), um samba com bela letra e intrincada melodia. A segunda, ‘‘500 Anos de Folia’’ (Luiz Carlos-Fred), que dá nome ao trabalho. A produção ficou a cargo de Jairzinho Oliveira, filho do cantor e ex-integrante do extinto Balão Mágico, e do poeta e compositor Bernando Vilhena (um dos principais letristas da geração roqueira dos anos 80).
Os dois produtores resolveram investir no saudosismo. Isto é, ‘‘500 Anos de Folia’’ ganha um clima de Big Band. Ficou uma delícia. Vai agradar velhos e novos fãs de Jair Rodrigues. E se duvidar, vai chamar a atenção até mesmo de quem sempre torceu o nariz para, digamos assim, o ecletismo musical de Jair.
Os arranjos ficaram a cargo dos maestros Branco, Ivan Paulo e Laércio de Freitas. Mas a jovem guarda se faz presente através de participações especiais como Pedro Camargo Mariano (bateria) e os rappers Criminal D e Guangue de Rua, Camorra e Potencial na releitura moderninha de ‘‘Deixa isso Pra lᒒ (Alberto Paz-Edson Menezes. Moderninha mas não afetada. No ponto.
A participação especialíssima fica por conta do DuoFel – formado pelos exímios e originais violonistas Luiz Bueno e Fernando Melo – que comparece em duas das mais deliciosas faixas do CD – ‘‘Ponteio’’ (Edu Lobo-Capinam) e ‘‘Disparada’’ (Geraldo Vandré-Theo de Barros).
Agora, minha gente, Jair se mostra iluminado quando solta o vozeirão em ‘‘Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda’’ ( Lamartine babo-Francisco Mattoso). É nesse momento que surge – e o público rendido ao seu canto –, um intérprete soberano. É melhor faixa do CD. Não há dúvidas.
‘‘500 Anos de Folia’’ não pode ser classificado apenas como um mero disco de regravação. É certo que a formato escolhido não é nada original. Porém, o CD vem com tanta força que é impossível resistir aos seus encantos. É, em resumo, um disco que há muito tempo Jair Rodrigues precisava fazer para lembrar o Brasil de que ele é um de seus maiores intépretes. Até os mais esnobes e preconceituosos hão de destorcer o nariz se ouvirem.

mockup