Não fossem as flechas poéticas da música de abertura da minissérie ‘‘Hilda Furacão’’ vararem o coração do Brasil, o novo disco de Nana Caymmi poderia chegar às prateleiras sem maiores alardes ou apelos. Poderia, inclusive, ser injustamente acusado de ‘‘mais um disco de Nana Caymmi’’, a imutável, a grande intérprete sempre à beira de um ataque de melancolia fonográfica. Acontece que em ‘‘Resposta ao Tempo’’ (Emi), a música da minissérie global e nome do novo trabalho, em momento nenhum - NENHUM - de suas 15 faixas arranca bocejos ou deprime os mais suscetíveis ouvintes. E isso é incrível já que em alguns trabalhos anteriores por maiores que fossem seus méritos vocais, Nana Caymmi sempre - SEMPRE - deixava madorrenta essa ou aquela canção.
‘‘Resposta ao Tempo’’ é, na verdade, um dos produtos mais acessíveis gravados pela cantora. Mas é bom que se diga que a palavra ‘‘acessível’’, em se tratando de Nana Caymmi, nunca terá conotação rasteira. Ela ainda é a intérprete mais sofisticada e imutável da MPB. No disco há samba, sambinha, samba-canção, baladas, bolero e bolero e mais bolero. As mesmas coisas de sempre. A diferença é que desta vez Nana Caymmi, além de colocar todo o sentimento à tona, escolheu um repertório agradável sem, em momento nenhum, descambar para o comercialismo.
Isso poderia acontecer, por exemplo, em ‘‘Bolero da Neblina’’, da dupla ‘‘emplaca-sucessos-descartáveis’’ Altay Veloso e Paulo César Feital. Sabe-se lá o que Nana viu na música mas o fato é que com seu jeitinho imprimiu-lhe dignidade. ‘‘Resposta ao Tempo’’ ancora-se em pepitas da MPB. É que Nana nunca teve pudor, e isso é para poucos, de regravar o que lhe dá na telha.
Ela pode porque é uma mestra em fugir do convencionalismo graças à sua maneira habilidosíssima de construir e reconstruir frases musicais seja na batida ‘‘Pra Machucar Meu Coração’’ (Ary Barroso) ou na manjada ‘‘Fascinação’’, que virou tema de abertura da novela homônima exibida pelo SBT.
A cantora achou por bem convocar três grandes nomes da MPB para repartir o microfone. Dos três, apenas um pode ser considerado cantor de verdade. É Emílio Santiago que canta a ingênua ‘‘Doralinda’’ (João Donato e Cazuza). Os outros dois atuam como meros figurantes. O primeiro é Erasmo Carlos em ‘‘Não se Esqueça de Mim’’ (dele com Roberto carlos) e o outro, Chico Buarque na singela ‘‘Até Pensei’’ (de sua autoria).
Enquanto Erasmo dá provas de que é travado por natureza, Chico demonstra que já não canta (aliás, nunca cantou), mia. Travas e miados à parte, o fato é que a voz e interpretação de Nana se sobressaem de tal maneira que, vejam só, acaba por transformar ‘‘Não se Esqueça de Mim’’ e ‘‘Até Pensei’’ em duas das mais interessantes faixas.
Ainda na seção ‘‘pepitas’’, a cantora foi buscar o samba-canção ‘‘Longe dos Olhos’’ (Cristóvão Alencar-Djalma Ferreira), um dos sucessos de Francisco Alves. Revela-se aí a grandiosidade de Nana não só por recuperar uma preciosidade como também ressaltar sem pieguismo a dor de cotovelo sugerida pela letra. É de se ouvir zilhões de vezes.
Agora, se é por falta de um bom motivo para se ter ‘‘Resposta ao Tempo’’, lá vão dois. Um: a fantástica ‘‘Chega de Tarde’’ (Danilo Caymmi-Cacaso), uma marchinha que Nana canta com rara desenvoltura. Dois: a regravação da belíssima ‘‘Minha Nossa Senhora’’ (Fátima Guedes), que encerra o disco e mostra toda a veia dramática da cantora.
Se os dois motivos não forem suficientes, compre o disco por causa de ‘‘Resposta ao Tempo’’. A canção, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, é linda mesmo. Com ou sem a unção da Rede Globo, seria inevitavelmente um clássico. E ninguém melhor que Nana para cantá-la, para eternizá-la. Mas quis o tempo que a canção servisse de chamariz para um dos mais belos e diretos, mas não menos inspirado, momento da imensa e soberana Nana Caymmi.

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