São Paulo, 03 (AE) - Ele foi o patriarca do cinema brasileiro, reconhecido e avalizado pela geração do Cinema Novo, que sempre teceu loas a Humberto Mauro. Há dois anos, no centenário de seu nascimento, Mauro foi homenageado pela Funarte com o lançamento de uma coleção de vídeo com seus clássicos. Agora, uma pesquisa da historiadora Silvia Oroz sobre os filmes em preto-e-branco e os melodramas na América Latina traz de volta, de novo pela Funarte, com capa nova, Brasa Dormida e Sangue Mineiro.
Embora a maioria da crítica considere Ganga Bruta a obra-prima do cineasta, Brasa Dormida e Sangue Mineiro também são considerados títulos de ponta em sua filmografia. O primeiro é de 1928 e o segundo, do ano seguinte. Não representa pouca coisa o fato de este pioneiro ter conseguido realizar seus filmes no interior de Minas, superando as condições adversas para compor o chamado "ciclo de Cataguases", um dos grandes movimentos de criação do cinema brasileiro na fase muda. Para os seus admiradores e eles incluem desde Gláuber Rocha, que abominava a tradição, mas o reverenciava como mestre, até críticos estrangeiros como os franceses Georges Sadoul e Sylvie Pierre, Mauro está para o Brasil como John Ford para os Estados Unidos ou Jean Renoir para a França. Ou seja, seus filmes compõem uma espécie de matriz do imaginário brasileiro neste século que se aproxima do fim.
Antes de virar cineasta, Mauro vivia de biscates. Nasceu numa fazenda da Zona da Mata de Minas, em 1897. Em 1910, a família mudou-se para Cataguases. Fez curso de eletricista por correspondência, praticava esportes, dedicava-se à música e ao teatro amador. Conta-se que fabricava rádios e alto-falantes de fundo de quintal quando começou a se interessar por fotografia. Daí para o cinema foi um passo, que o autodidata Mauro deu em companhia do fotógrafo italiano Pedro Comello. Juntos fizeram Valadião, o Cratera, que foi a pedra de base da catedral mauriana.
Foram 13 longas e mais de 300 curtas realizados entre 1925 e 1974. Comentando a produção de Mauro, Sylvie Pierre destaca que só mesmo um grande diretor e um homem de muita tenacidade poderia impor-se nos anos 20 em um meio de recursos técnicos e econômicos reduzidos, sem uma formação específica, numa cidade do interior e num país periférico, além de tudo. Mauro foi pioneiro na tarefa gigantesca de colocar o Brasil na tela. Não por acaso, costuma ser definido como "o mais brasileiro dos cineastas". Por sua raiz nacional, costuma ser colocado em oposição a Mário Peixoto, que fez, com Limite, uma obra mítica, mas concebida de olho na vanguarda européia.
Cachoeira - Mauro é brasileiro não só pela escolha de seus assuntos, mas pela maneira de armar o plano, movimentar a câmera
montar as sequências. Sua definição do cinema se tornou célebre. Ele, que morreu em 1983, aos 86 anos, gostava de comparar o cinema a uma cachoeira. Dizia que não conhecia ninguém que, tendo visto uma cachoeira, não quisesse filmá-la. Trabalhando sempre com recursos limitados no início de sua carreira, ele pôde fazer Brasa Dormida com mais dinheiro, até mesmo contratando dois artistas do Rio de Janeiro - Nita Nei e Luís Soroa -, por conta do êxito de seu filme anterior, Tesouro Perdido, que havia consolidado a produtora Phebo Brasil Film de Cataguases.
Com fotografia poética de Edgar Brasil (que colaborou depois no cultuado Limite), Brasa Dormida conta a história de um playboy do Rio que é obrigado pelo pai a procurar emprego. Ele vai para o interior, emprega-se como administrador de uma usina de açúcar e acaba casando-se com a filha do usineiro. Mauro concebeu o filme de tal forma que, embora o campo forneça a redenção ao protagonista, o que mais impressiona são as imagens urbanas, quase documentárias, que incluem uma bem montada corrida de cavalos na Gávea.
Neste filme, o diretor não se limitou a aperfeiçoar a construção dramática simples de Tesouro Perdido. Introduziu doses maiores de sensualidade e uma certa melancolia nas cenas de amor e também partiu para uma complexa estrutura dramática em blocos. No seu filme seguinte, que encerra o ciclo de Cataguases
de novo com fotografia de Brasil, se inverte o esquema e uma moça da cidade se junta a um rapaz do interior depois de romper com um playboy. Sangue Mineiro foi o primeiro filme de Mauro com Carmem Santos, atriz que também foi produtora e diretora, sendo considerada outra das mais fascinantes personalidades da história do cinema brasileiro.
Sangue Mineiro teve cenas rodadas em Belo Horizonte. Estreou em janeiro de 1930, quando o cinema já havia começado a falar. Naquele mesmo ano Mauro foi para o Rio, onde dirigiu, na Cinédia
a comédia de sabor bem carioca Lábios sem Beijos. Foi seu último filme mudo. A seguir fez Ganga Bruta, já com som. Durante algum tempo sua obra esteve relativamente esquecida. Foi resgatada para provar, em definitivo, que se trata de um dos grandes mestres da cinematografia nacional, cujos filmes merecem estar em qualquer videoteca que se preze. SERVIÇO - Brasa Dormida (1928) e Sangue Mineiro (1929). Direção de Humberto Mauro. Fitas da Funarte, R$ 20 cada. Nas lojas da entidade ou pelo telefone (021) 297-6116.

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