Mais de 100 artistas participam de oito Cds do Songbook Chico Buarque
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sexta-feira, 03 de dezembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 03 (AE) - Chico Buarque está encerrando, em São Paulo, a temporada do melhor show de sua carreira. Acabou de lançar um disco - o próprio show, gravado ao vivo - belíssimo e comercialmente bem-sucedido. Ganhou um perfil biográfico, escrito pela jornalista Regina Zappa, e uma exposição, em cartaz no Rio, com interpretações visuais, por artistas plásticos, de 80 de suas músicas. O pacote Chico completa-se agora com o lançamento do Songbook Chico Buarque, organizado e produzido pelo especialista Almir Chediak para seu selo fonográfico e editora, Lumiar.
São 8 discos, com 119 músicas apresentadas em gravações inéditas, muitas e muitas vezes surpreendentes, interpretadas por mais de 100 personalidades do primeiro time da música brasileira, de Nana Caymmi a ¶ngela Maria, de João Bosco a Cauby Peixoto, do Mestre Ambrósio a Dominguinhos. Os discos estarão à venda a partir de segunda-feira. Podem ser comprados um a um. O preço deve variar entre R$ 20,00 e R$ 22,00. O Songbook completa-se com quatro livros contendo 220 partituras revisadas pelo autor das músicas e pelo autor do livro, selecionadas por eles. É o supra-sumo da produção de Chico. Ainda no livro um vasto material iconográfico, textos analíticos, ensaio biográfico e uma reveladora entrevista do compositor ao editor. Os livros, também vendidos um a um, estarão nas lojas no dia 15, ao preço de R$ 39,00, cada volume.
Revelações - É o 16.º songbook organizado por Chediak, que está preparando, para o ano que vem, pelo menos mais três títulos importantes - o Songbook João Bosco, com três discos e livro com cem partituras, a coleção de discos para o Songbook Caetano Veloso (mas não sabe ainda quantos volumes serão; a previsão inicial, com Chico Buarque, era de quatro CDs, e o número dobrou) e um álbum de partituras com 500 músicas, brasileiras, claro, tradutoras do século.
Entre muitos pontos curiosos, alguns importantes, tratados na entrevista a Chediak, Chico pronuncia-se sobre o Ecad, órgão que centraliza a arrecadação de diretos autorais e com o qual, de vez em quando, algum grupo tenta acabar: "Se o Ecad é um desacerto, sem ele era muito pior", diz o compositor. Existiam várias sociedades arrecadadoras, umas panelinhas que relutavam em aceitar um sócio novo, porque seria mais um a dividir o bolo." Os grupos que pretendem acabar com o Ecad querem exatamente a volta disso, das múltiplas sociedades arrecadadoras. Chico deu xeque-mate na discussão.
Conta, ainda, que quis ser músico por causa de João Gilberto e que, por não saber tocar como ele, acabou virando compositor: "Talvez por incapacidade de reproduzir os acordes do João Gilberto, comecei a inventar os meus", lembra. "Tentava fazer uma música parecida com a que ouvia o João tocar
mas como saía tudo diferente, sem querer, fui virando compositor." Rememora saborosas histórias vividas com Tom Jobim e recorda que o maestro lhe recomendava "preservar" uma certa "ignorância" - a espontaneidade, a intuição.
Os oito discos do Songbook Chico Buarque são fabulosos. O produtor Chediak, que começou como professor de violão (de Nara Leão e Caetano Veloso, entre muitas personalidades), criou uma editora e aprendeu na marra os segredos da produção fonográfica, tem a arte de descobrir que o intérprete mais inesperado é o melhor para determinada música. Assim, deu, por exemplo, para Dominguinhos a interpretação de "A Banda". O grande músico pernambucano montou uma espécie de bandinha de pífanos, com zabumba, e transformou a marcha suburbana de Chico Buarque num auto nordestino, uma festa, uma celebração. É uma das melhores das 119 faixas.
Há momentos rigorosamente sublimes. Citando alguns: Zé Renato, cantando, com Jaques Morelenbaum, "Basta Um Dia"; Carol Saboya, com O Trio, cantando Leve", parceria de Chico e Carlinhos Vergueiro; Zezé Gonzaga e Maurício Carrilho em "Valsinha; o MPB-4 dimensionando a visão soturna de "A Volta do Malandro"; Beth Carvalho cantando "Apesar de Você" - era ou não uma música que ela deveria ter gravado antes? Só que nem ela, nem ninguém havia pensado antes; Zeca Pagodinho e Almir Guineto na folia da "Feijoada Completa"; Toninho Horta, violão e voz, revelando "Mar e Lua", pérola um tanto esquecida; Cláudio Nucci, acompanhado pelo violão de Guinga, definindo a perfeita dimensão do "Suburbano Coração".
Reconstruções - O princípio que rege a seleção dos artistas tem dois pontos básicos. Um, que ele não tenha cantado antes a música que lhe é oferecida; dois, naturalmente, que ele goste dela, que ela lhe fale de perto, lhe excite a inteligência
a sensibilidade. E só. As versões são de responsabilidade dos intérpretes. O grupo pernambucano Mestre Ambrósio encontrou um maracatu no fundo do baião "Caçada; José Miguel Wisnik e Luiz Tatit reconstruíram "Construção", uma leitura musical que vale por tratado teórico do que eles pensam de música; Cristóvão Bastos encontrou ponto de contato entre as Gymnopedies, de Eric Satie, e a valsa buarquiana "Joana Francesa", que Miúcha canta; Zeca Baleiro uniu-se ao guitarrista Vitor Biglione e descobriram um blues que não se superpõe ao baião conduzindo o pulso de "Até o Fim.
Tem Cauby Peixoto cantando "Viver do Amor", música que
percebe-se agora, sempre foi dele, e Bibi Ferreira dilacerando-se na confessional voz feminina apaixonada de "Palavra de Mulher". São achados. É o melhor de todos os songbooks.


