O mineiro José Rubem Fonseca sabe melhor que ninguém como aprisionar o leitor numa narrativa enxuta e contundente. Considerado um dos precursores do roman noir no Brasil, Rubem Fonseca não é do tipo que desperdiça palavras. Pelo contrário. Ele vai direto ao assunto. A intimidade do ex-delegado de polícia com a marginalidade carioca já é tanta que, às vezes, ele se reserva o direito de fazer graça. Em ‘‘A Confraria dos Espadas’’ (Companhia das Letras/132 páginas/R$ 16), o nono livro de contos da carreira do escritor, o humor está tão presente quanto a morbidez. A começar pelo título, que faz alusão à gíria carioca em que espada significa heterossexual convicto.
Aos 87 anos, o autor de ‘‘Feliz Ano Novo’’ e ‘‘A Grande Arte’’ continua a se superar como contista. Formalmente pela concisão e tematicamente pela abrangência. Os oito contos de ‘‘A Confraria dos Espadas’’ abordam os mais diferentes assuntos, desde comércio ilegal de órgãos até manipulação genética. O conto que dá título ao livro, por exemplo, é um breve relato sobre uma fracassada confraria de garanhões que desenvolve um método para atingir o orgasmo sem ejaculação. Já em ‘‘A Festa’’ é a vez de um rico industrial morrer de enfarto sem que nenhum dos convidados se preocupe em retirar o cadáver da sala. Como já era de se esperar, Rubem volta a dissecar dois de seus temas prediletos: sexo e morte.
A crítica costuma se dividir diante da obra de Rubem Fonseca. Para alguns, ele é um gênio. Para outros, um mero repetidor. No novo livro, ele cumpre, alternadamente, as duas funções. Foi inventivo quando escreveu ‘‘Livre-Arbítrio’’, em que um homem assassina mulheres injetando em cada uma delas uma substância letal. Embora a discussão sobre a ética da morte também seja frequente na obra do autor, este é o seu primeiro conto epistolar. Mas foi diluidor quando repetiu a si mesmo em ‘‘O Vendedor de Seguros’’. Nele, um homem sai de casa dizendo à mulher que vai realizar mais um trabalho de rotina. Aos poucos, descobre-se que o trabalho do sujeito é outro, mais sujo. Narrada em primeira pessoa, é a enésima história de matador contada por Rubem.
É claro que, numa obra tão extensa, a qualidade é sempre irregular. Em ‘‘A Confraria dos Espadas’’, Rubem não demonstra a menor preocupação em criar algo de novo. Ele tem preferido depurar a linguagem ou tecer variações sobre um mesmo tema. Pode-se até dizer que nenhuma das novas histórias merece um lugar de destaque numa antologia do autor. A verdade, porém, é que figurar em tal antologia significa disputar espaço com obras-primas, como ‘‘Passeio Noturno’’ e ‘‘O Cobrador’’. Raros são os escritores que conseguiram sustentar esse nível de excelência ao longo de 35 anos de carreira.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna de Marcos Losnak.Arquivo FolhaRubem Fonseca: no livro, ele aborda desde comércio ilegal de órgãos até a manipulação genéticaAndré Bernardo
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