Mais Cigarros e Álcool
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quinta-feira, 03 de março de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Em 28 de agosto de 2009, uma guitarra acústica quebrada em pedaços definiu o fim da maior banda britânica de rock dos últimos 20 anos e serviu como ponto final para uma história de muitas drogas, sexo e shows esgotados - sempre envolvendo o espírito autodestrutivo do rock and roll. A trajetória do Oasis, comandado pelos irmãos Gallagher, bem que podia servir como um 'estudo de caso' freudiano sobre o relacionamento de amor e ódio entre dois irmãos egomaníacos; a fama, misturada com o abuso de álcool e cocaína durante anos, só serviram para aumentar gradualmente as tensões entre Noel, irmão mais velho e compositor de todos os sucessos banda, e Liam, líder nos vocais marcantes e dono de uma personalidade inconsequente.
No meio da década de 90, mesmo com os hits de seus álbuns ''Definitely Maybe'' e ''What's The Story? (Morning Glory)'' alcançando o topo das paradas mundiais e trazendo canções que definiram os parâmetros da nova geração do brit-rock - como 'Wonderwall' e 'Live Forever' - o Oasis sempre foi cercado por polêmicas e por inimizades musicais, principalmente por causa da postura arrogante dos irmãos Gallagher, explorada em todo potencial pelos tablóides ingleses: eles chegaram a proclamar o Oasis como sendo a melhor banda da História e disseram que Mick Jagger e Paul McCartney eram apenas ''velhos chatos, fedorentos e que pararam no tempo.''
Com o Oasis alternando os seus lançamentos entre discos bons e ruins - mas sempre contando com dois ou três novos grandes hits - a banda nunca parou de lotar estádios e impressionar com suas perfomances ao vivo. Ao mesmo tempo, existiam sinais claros de desgaste entre os seus dois principais integrantes: um pouco antes da separação em 2009, os irmãos Liam e Noel já não se falavam, chegavam no show em aviões diferentes e trocavam insultos através da imprensa. A gota d'água veio quando, minutos antes da apresentação no festival francês 'Paris Rock', o vocalista Liam, em um acesso de raiva, deixou em pedaços a guitarra preferida de seu irmão. Noel declarou que deixaria a banda na mesma noite, pelo site oficial.
Depois da saída de Noel, o Gallagher mais novo logo afirmou que continuaria com a banda sozinho e que, daquele momento em diante, o Oasis mudaria o seu nome para Beady Eyes. A afirmação foi motivo de expectativa e desconfiança no meio musical - será que o irmão desajustado conseguiria, sem o talento e a disciplina de Noel, fazer um bom disco?
A resposta para esta pergunta chegou nas prateleiras na última segunda-feira, e o resultado, intitulado ''Different gear. Still speeding'', é o melhor possível. A banda Beady Eye, formada por Liam e outros ex-integrantes do Oasis, conseguiu escapar da armadilha de se transformar em uma sombra do passado, acertando ao arriscar estabelecer uma sonoridade própria. A faixa que abre o álbum - ''Four Letter Word'' - com gritos rasgados proclamando no refrão que ''Nada dura para sempre'', serve exatamente como um divisor de águas entre o Oasis e a nova banda. A partir dali, tudo assume um outro ritmo.
Alternando canções com melodias descontraídas e espontâneas, o mais novo dos Gallagher parece ter abandonado a pretensão de ter músicas fortemente trabalhadas em suas novas composições - deixando de lado o experimentalismo psicodélico que virou a tônica do Oasis, principalmente no último álbum 'Dig Out Your Soul' - agora, o objetivo é a busca por um som mais natural e menos carregado.
Uma puxada para o folk, como na faixa 'Millionaire', e constantes levadas de piano estabelecem a cara de Beady Eye; a boa 'The Roller' e a excepcional 'Bring The Light' relembram o som frenético de Jerry Lee Lewis e - não deixando de lado a essência pop - baladas com influência dos Beatles estão presentes em 'For Anyone' e 'Three Ring Circus'. O rock acelerado é representado por 'Beatles and Stones' que, apesar de ser um claro plágio do clássico do The Who ''My Generation'' (ou exatamente por isso) tem aquele ingrediente do rock and roll que faz você querer dirigir rápido e beber muito. Mas se beber, não dirija.
Enfim, é muito cedo para dizer se a multidão que costumava comprar cada lançamento do Oasis vai aprovar a nova aventura de Liam, especialmente pelo fato de suas novas músicas não seguirem os passos melódicos de sua ex-banda. Mesmo assim, o lançamento do Beady Eyes é suficiente para comprovar o talento do vocalista como compositor e mostrar que nem as drogas, o álcool e a arrogância do Gallagher caçula conseguiram estragar sua criatividade musical. Talvez isso faça mesmo parte do 'pacote' para ser um rockstar.


