Um cachimbo suspenso no ar. Uma maçã gigantesca dentro de um quarto. Uma locomotiva saindo de uma chaminé. Um olho flutuando nas nuvens. Uma chuva de homenzinhos de capote preto.
O acervo de imagens legado pelo artista belga René Magritte (1898-1967) já faz parte do imaginário pop - diluído em videoclipes, capas de discos e desenhos animados - mas a comemoração de seu centenário neste 21 de novembro é ponto de honra para todos aqueles que um dia foram picados pela audácia estética surrealista.
Magritte é um dos destaques da 24ª Bienal de São Paulo com 30 obras instaladas no núcleo histórico da Exposição. Fez parte do movimento surrealista, liderado pelo poeta André Breton, com o qual manteve uma relação conturbada ao longo de quatro décadas. Suas pinturas, já descritas como ‘‘sonhos pintados’’, arremessam o espectador a um mundo silencioso e perturbador onde o familiar coexiste com o fantástico.
Herdeiro da tradição nórdica que vai de Hieronymus Bosch (cerca de 1450-1516) a James Ensor (1860-1949), ele foi atraído inicialmente pelo Impressionismo. Mas logo percebeu que esta técnica de pintura ao ar livre era inadequada para a exploração da zona cinzenta da mente. Mais tarde flertou com o Cubismo e o Futurismo para finalmente ancorar sua fantasia poética no surrealismo curvando-se aos talentos de Giorgio de Chirico e Marx Ernst.
Diferente dos companheiros, porém, rejeitou muitas idéias apregoadas nos manifestos do grupo.
Para ele, a pintura era a ‘‘descrição visível do pensamento’’, o que contrariava alguns dogmas do movimento como a justaposição delirante de objetos desconexos e o jorro sem controle de imagens do subconsciente. Havia lógica em suas colagens. Magritte achava que toda a esquisitice estava às claras, cabendo ao artista transportá-la para as telas com - numa grosseira descrição - uma distorção de formas aqui ou uma eleição inesperada de objetos ali.
Na verdade, sua adesão ao movimento surrealista jamais foi pacata. Em 1928, um ano depois de desembarcar em Paris e se entrosar com o grupo, André Breton deixou de mencioná-lo em seu livro ‘‘Le Surréalism et la Peinture’’. Pior: nem o convidou para participar da ‘‘Exposition Surréaliste’’ daquele ano.
Mais tarde implicou com um crucifixo usado por Georgette, mulher do pintor, azedando as relações. O racha é apaziguado quando, em 1934, Breton convida Magritte para ilustrar a capa de seu livro ‘‘Qu’est-ce que le Surréalisme?’’. A pintura, batizada de ‘‘A Violação’’, mostra um rosto de mulher em cujas feições estão desenhados seus seios, umbigo e púbis.
Em 1947 o diálogo é quebrado novamente, com o poeta expulsando o pintor das fileiras do movimento. Em 1961 os dois contendores reatam os laços, motivados por uma exposição de Magritte em Londres. O catálogo da mostra traz um texto elogioso assinado por Breton.
Com exceção dessa célebre rivalidade, o pintor teve uma vida pacata, a maior parte dela passada em Bruxelas. Nascido na cidade de Hainaut, perdeu a mãe aos 13 anos numa morte trágica. Ela se suicidou jogando-se de uma ponte. Seu corpo apareceria dias depois boiando num rio com o rosto encoberto por uma camisola branca, o que levou muita gente a especular sobre algumas telas de sua autoria em que aparecem objetos e pessoas embrulhadas com panos brancos.
Mas, por sua biografia, parece ter se livrado de eventuais traumas. Em Bruxelas, casou e permaneceu fiel durante 45 anos à mesma mulher. Trabalhou como desenhista de papel de parede e nunca teve ateliê profissional. Pintava em casa e seguia uma rotina da qual faziam parte as compras pela manhã em companhia de um cachorrinho e jogos de xadrez com velhos amigos ao final da tarde, enfim, uma vidinha besta que escondia um artista extraordinário.

mockup