São Paulo - Alguma coisa está fora da ordem na nova ordem mundial. E o cineasta David Cronenberg captou essa sensação de mal-estar em seu novo filme, ''Cosmópolis''. O escolhido do diretor canadense para representar essa crise de valores - não só no sentido financeiro do termo, mas também no moral - é o ator inglês Robert Pattinson, o vampiro Edward da ''Saga Crepúsculo''.
Famoso pela história de amor vampiresca, Pattinson encarna neste filme Eric Packer, um jovem bilionário do mercado financeiro que se acha superior aos reles mortais e cuja principal preocupação é, a bordo de sua limusine branca, atravessar a cidade de Nova York para cortar o cabelo com seu antigo barbeiro. Até mesmo o tratamento dispensado à mulher, Elise, personagem da atriz canadense Sarah Gadon, é tão frio como se ela fosse mais um de seus subordinados.
Justamente no dia em que Packer resolve cortar o cabelo, o presidente dos Estados Unidos está visitando Nova York. Com o sistema de segurança governamental em ação, o trânsito impera. Ao mesmo tempo, manifestações populares aumentam ainda mais a sensação de caos. O próprio executivo é informado de que está sob ameaça. Mas nem esses entraves o fazem mudar de ideia e ele quer continuar sua jornada.
Vivendo em um universo paralelo dentro da limusine, o executivo se relaciona com outras pessoas dentro do próprio veículo. Pelo percurso, encontra figuras como a amante Didi Fancher (Juliette Binoche) e a gerente Vija Kinsky (Samantha Morton). Seu modo de encarar a vida também cria desafetos, como Benno Levin, papel de Paul Giamatti.
O capitalismo em colapso, o sistema financeiro dando as cartas no cenário global e as manifestações populares contra as organizações públicas e privadas já eram temas que estavam nas páginas do livro homônimo de 2003, do escritor americano Don DeLillo. E continuam em voga, vide a crise econômica mundial de 2008 e suas consequências, assim como os recentes protestos do Ocuppy Wall Street, que se alastraram do centro financeiro de Nova York para as mais diversas regiões do planeta.
Esses assuntos são levados para a tela com o tom característico de Cronenberg. Porém, a inclinação ao escatológico de outros tempos já não está tão em evidência, como também se mostrou em ''Um Método Perigoso'' (2011). Mas a violência e a tensão psicológica permanecem.
Cronenberg chegou ao romance de DeLillo por indicação do produtor português Paulo Branco. O cineasta leu em dois dias a obra e logo aceitou o convite para fazer o longa. O roteiro foi escrito pelo próprio Cronenberg em exatos seis dias, metade do tempo aproveitado para a digitação dos diálogos do livro e, depois, para acertar os encaminhamentos das cenas.
''Cosmópolis'' foi recebido friamente em Cannes, em maio, quando concorria à Palma de Ouro no festival francês. A princípio, o papel de Packer seria feito por Colin Farrell e o de sua mulher, por Marion Cotillard. Mas o ator irlandês teve problemas de agenda e ela estava grávida. Cronenberg já havia assistido a trabalhos anteriores de Pattinson, como ''Poucas Cinzas'' (2008) e ''Lembranças'' (2010), e estava convencido de que o ator poderia ser o protagonista. Ajustou, então, a idade do personagem, o que acabou sendo mais fiel ao próprio livro.

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