Tudo não passa de uma feliz (?) coincidência, mas Hollywood está de mãos para o céus, agradecendo os dois presentes prontos e embalados, somente à espera do grande dia para dar a largada rumo à providencial aventura escapista que se anuncia para o melancólico fim de ano. Na trilha do baixo astral planetário instalado após 11 de setembro, os executivos da indústria cinematográfica ainda não sabem muito bem o que fazer sobre o futuro imediato do filme made in USA, por enquanto nas cabeças de FBI, CIA e Exército. A produção 2001, que já vinha se arrastando vitimada por uma crise de criatividade mais ou menos cíclica, deposita agora as últimas esperanças nos dois títulos que encerraram a temporada. O fator superveniente é que ''Harry Potter e a Pedra Filosofal'' e ''O Senhor dos Anéis - A Irmandade do Anel'' entram duplamente para a história, do cinema e do século nascente: além de respeitável dupla de adaptações, capazes de despertar paixões de toda espécie, chegam às telas naquele momento que costuma ser chamado de crucial.
Produtos tipicamente evasivos em tempos de paz, adquirem significado especial na conjuntura inquietante em que vivemos. No momento de irracional violência amplamente disseminada, platéias elegem primordialmente dois tipos de evasão cinematográfica: o horror na tela, que pode tornar menos aflitiva a espera do correio, ou a magia delirante, a busca de lugares, façanhas e sonhos perdidos em algum lugar da terra do nunca. É em algum ponto desse território onírico que se situam ''Harry Potter'' e ''O Senhor dos Anéis'', os próximos campeões de bilheteria.
Com estréia brasileira prevista para o dia 23 de novembro (dia 16 nos Estados Unidos), ''Harry Potter e a Pedra Filosofal'' deve levar multidões ao cinema em todo o mundo. Ou na pior das hipóteses nos 20 países onde a escritora inglesa J. K. Rowling teve traduzida sua série de livros com o pequeno heroi-mago, transformando a autora na 24ª fortuna mundial, segundo a revista Forbes. Como explicar este triunfo de ''Harry Potter''? Literatura infantil que muitos consideram não muito infantil, literatura que amarra, que faz as crianças sonharem e - o que é melhor - terem vontade ler. Na esteira do êxito avassalador, uma legião de seguidores, o culto febril ao personagem, uma incontável rede de links, a inútil polêmica cristã-escolar em torno de bruxos e magias, uma ágil e esperta pirataria capaz de provocar a ira jurídica da Warner Bros., produtora do filme. No entanto, por trás desse êxito incomum, muitos perguntam que percentual do sucesso é fruto da imaginação de Rowling, e o que seria obra de marketing. Há quem aposte que se trata da mescla perfeita e acabada entre ambos.
Fazer um filme sobre um livro lido por milhões de pessoas de todas as idades, recriando imagens já plasmadas em todas as cabeças resulta extremamente arriscado. É impossível superar a imaginação infantil, mas pode-se tentar atingir expectativas. Para isso é necessário inventar gnomos, bruxos com roupas extravagantes, vassouras voadoras, dragões, canetas que escrevem sozinhas. Ou seja, recriar o mais fielmente possível o complexo e fascinante universo de Rowling. Muitos foram os diretores cogitados para realizar o filme, de Jonathan Demme a Mike Newell, passando por Alan Parker, Wolfgang Petersen, Rob Reiner, Tim Robbins, Peter Weir, Terry Gilliam, Ivan Reitman e até Steven Spielberg, que está de olho no quarto livro da série, ''Harry Potter e o Cálice de Fogo''. Mas nenhum desses acabou eleito pela produção, e finalmente o projeto foi parar nas mãos de Chris Columbus, responsável pelos recordistas ''Esqueceram de Mim'' e ''Uma Babá Quase Perfeita''.
A primeira reação foi de desconfiança, e partiu dos fãs mais ardorosos e da própria Rowling (Terry Gilliam era o preferido dela). Como, um diretor americano com tendências sentimentalóides iria dirigir um filme protagonizado pela quintessência dos britânicos? Rowling queria que a obscuridade fosse preservada, e embora contratualmente não tivesse controle sobre o projeto, os executivos da WB entenderam e aceitaram suas sugestões, que poderiam satisfazer os milhões de ''incondicionais''. Nenhum esforço ou recurso ou talento foi economizado para garantir um espetáculo à altura das expectativas. Exteriores e interiores estão fieis à letra original, graças a um trabalho meticuloso de direção artística.
Talvez o momento mais delicado de todo o processo de adaptação tenha sido a escolha do ator para viver Harry. Dos milhares iniciais sobraram 300 candidatos numa segunda seletiva. J.K. Rowling, que vigiava atentamente toda a movimentação diz que, ''vendo Dan Radcliffe nos testes de câmera, não tive dúvidas de que era ele o único capaz''. Sua única experiência anterior foi significativa: ''O Alfaiate do Panamá'', dirigido por John Boorman. Já os companheiros de travessuras de Harry são recém-chegados ao cinema: Emma Watson é sua amiga Hermione Granger, enquanto seu companheiro inseparável Ron Weasley é vivido por Rupert Grint. No elenco adulto, venerandos nomes do cinema inglês: Richard Harris como o diretor de Howgarts, Dumbledore; Alan Rickman como o sinistro professor Snape; John Cleese, o fantasma Nick ''Quase Decapitado'': Ian Hart como o professor Quirrell, e mais Maggie Smith, John Hurt e Julie Walters. Pelo que já se viu e pelo que se sabe, a meticulosa Rowling deve estar feliz com o trabalho do elenco. Desde já estão todos confirmados para participar das sequelas - a escritora e a Warner já acertaram a adaptação das sete novelas de Harry Potter, inclusive das ainda por editar.

mockup