Brasília - Nada de escândalos ou briga de parlamentares no Congresso. Nesta época do ano, é a Lua que se impõe como centro das atenções em Brasília, surgindo a cada noite em tons de laranja para ir, aos poucos, perdendo a cor, até atingir um branco luminoso. O espetáculo é certeiro e atrai observadores fiéis. Afinal, essa visão clara não ocorre todos os dias: é resultado de condições bem específicas.
Uma delas é a seca que atinge a região até meados de setembro. Sem nebulosidade, fica muito mais fácil ver os detalhes do satélite, mesmo a olho nu. Mas não é só. A cidade, encravada no Planalto Central, tem arquitetura privilegiada, planejada para preservar a visão do horizonte. ''Por essa combinação feliz, é possível ver a lua de qualquer parte'', afirma o professor do Instituto de Física da Universidade de Brasília José Leonardo Ferreira. ''Ela salta aos olhos, mesmo para quem não está interessado em vê-la. Seja num passeio na Esplanada, no parque ou pela janela do hotel.''
A atração é tamanha que passeios e até viagens são programados para as noites de lua cheia. O Parque da Cidade, perto da Esplanada, por exemplo, está entre os pontos de encontro dos observadores. Trata-se da Caminhada da Lua, criada há dez anos e que hoje existe informalmente. Os grupos se reúnem lá de forma espontânea, por volta das 20 horas.
O Parque Nacional de Brasília - ponto de divisão das Bacias Amazônica, Prata e São Francisco - também abre suas portas para os admiradores. Em um determinado dia da lua cheia, o espaço estende o horário de funcionamento para permitir visitas guiadas também a partir das 20 horas, o LuÁgua.
Após a trilha, os mais animados tomam banho na piscina natural. A água é fria, mas fica prateada com o reflexo da lua. Irresistível. ''Quem vem de fora nem acredita que há um lugar lindo assim tão perto do Palácio da Alvorada'', diz o guia do parque, Gilson Pacheco Soares.
O empresário João Paulo de Luca Ribeiro está sempre de olho no calendário lunar. Ele é um dos responsáveis por organizar, uma vez por mês, o Pedal da Lua Cheia, passeio noturno de bike pela cidade. O grupo de 300 pessoas sai de uma quadra da Asa Sul e sempre faz um percurso diferente. ''Vem criança, jovem, gente mais velha.''
O espetáculo não se resume, claro, à capital. Na Chapada dos Veadeiros, há excursões para apreciar a lua cheia e seus reflexos nos rios e poços. Especializada em passeios místicos, a guia Georgina Rosa de Almeida conta que sempre recebe pedidos para caminhadas noturnas.
Um dos locais preferidos é o Poço Encantado, uma trilha fácil, para iniciantes. ''É um espetáculo lindo, a água fica prateada.'' O Vale da Lua, formado há 600 milhões de anos, é outro destino muito procurado, assim como o roteiro Sertão Zen, no qual os grupos apreciam dois espetáculos: o pôr-do-sol e o nascer da lua. A diária de um guia no parque custa R$ 60, em média. À noite, o valor tem de ser negociado. ''É pura magia.''
Há um grupo que faz canyoning, esporte em que praticantes passam por uma sucessão de abismos e cachoeiras. Os participantes saem às 23 horas e só voltam às 5 horas.
Muitos gostam de meditar nessas noites. ''A lua cheia simboliza o fluxo de energia sem nenhum obstáculo'', conta Ina Falcão, do grupo Cristal, Meditação e Serviço.

SERVIÇO
Grupo Cristal
Dá apoio a quem quer meditar nestas noites especiais (61) 3274-6996
Pedal da Lua Cheia
Passeio noturno, ocorre uma vez por mês (61) 3242-8285
Parque Nacional de Brasília
Fica aberto até mais tarde para a realização da trilha, com direito a mergulho em piscina natural (61) 3465-2016
Território Cerrado
Organiza grupos para prática de canyoning à noite (61) 3034-1122
Centro de Atendimento ao Turista de Alto Paraíso (61) 3446-1159

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