Quem vem acompanhando minhas reflexões obsessivas em torno dos espetáculos exibidos nesta sexta versão do Festival de Teatro de Curitiba terá notado, por certo, cá neste espaço de jornal, o quase invariável mau-humor, que não é, juro, como já andam dizendo por aí, fruto de temperamento esquivo e no mais das vezes devotado à amargura.
Não, claro que não, quero desmentir de público, e tendo, grata surpresa, motivos de sobra para isso: ‘‘Senhorita Else’’, levada à cena no Guairinha pelo grupo paulista Razões Inversas, coloca-se, desde já, como ponto alto deste festival marcado pela mediania.
Enfim, a emoção, o riso, a alegria despudorada que o teatro, e só ele, garantindo a mais absoluta cumplicidade entre ator e público, será capaz, desde que, óbvio, talento não seja artigo mesquinho e, a exemplo do festival deste ano, sistematicamente sonegado. Com a surpreendente releitura do clássico de Arthur Schnitzler (1862-1931), empreendida por Márcio Aurélio, foi como se o sexto festival de teatro se reconciliasse com suas platéias. Uma golfada de juventude e criatividade frente ao marasmo da ‘‘grade’’ nossa de cada dia.
Tendo à frente do elenco a impagável Débora Duboc, seguramente a melhor atriz do Festival, vivendo a persona-título, esta senhorita Else, deliberadamente escolhida pelo gênio de Schnitzler para concentrar misérias e grandezas (mais misérias que grandezas) da decadentérrima sociedade austríaca do fim do século, o espetáculo dos paulistas pareceu ressuscitar junto ao público que superlotava o Guairinha, a paixão, o gosto feliz pelo teatro.
Com uma história simples mas que alcança sínteses quase pânicas do que seja a velha e perversa alma humana frente ao dinheiro, ao poder, ao ‘‘amor’’ mais interesseiro, Schnitzler põe no palco o microcosmo das mazelas de seu tempo, ou, a julgar pela brilhante encenação de Márcio Aurélio, de todo e qualquer tempo.
Impossível dissociar o dramaturgo austríaco de um terremoto sob o chão da pacata Viena - o terremoto provocado pelo seu patrício e contemporâneo, e também colega (Schnitzler era médico e psicólogo), o nunca demais louvado, aqui ou alhures, Dr. Sigmund Freud, outra coisa que parece não ter escapado à atenta concepção do encenador: todo o tempo, ‘‘interpretado’’ pelas vozes dos demais atores em cena, o inconsciente de Else fala mais alto - e aí, senhores, sem as mentiras, sem as trucagens e o engodo com que cumprimos o rito social nosso apesar do silêncio cheio de unhas com que, no fundo da alma, quietos, odiamos.
Usando como cenário a estância de férias de San Martinho e como pretexto o universo decadentoso da burguesia ‘‘fin-de-siécle’’ onde, para conseguir 50 mil florins com vistas a salvar sua família da mais completa ruína, Else, nossa heroína, acaba por aceitar, em princípio, a proposta indecente do endinheirado Barão von Dorsday (exemplarmente vivido por Marcelo Lazzaratto): lhe fará o empréstimo desde que fique nua, por quinze minutos, para deleite de seus olhos lúbricos. Está, sutil leitor, deflagrado o drama. Else surpreenderá: corrompe-se, sim, mas em público, escandalizando nua o saguão do hotel, diante de toda a (sagrada) família.
Márcio Aurélio é, de novo, sagaz: traduz as ambivalências e ambiguidades de Else, entre a culpa e o desejo, a excitação e o ressentimento, as dúvidas e as certezas, pelo artifício simples não só de lhe fazer ‘‘falar’’ o inconsciente, via a voz dos demais atores, como amplifica, distribui, multiplica e reverbera a fala humana através do intrigante simulacro de microfones, com ou sem fio, de megafones, monitores de TV, jogos-de-luz com que holofotes, postados à esquerda e à direita do palco, devassam e como que ‘‘consomem’’ os personagens-atores, sob sua dura e crua luz.
Se imagina o leitor que tudo isto tenha sido concebido sob o signo do ‘‘terrível’’ - esta morbo-praga que parece requisito indispensável a toda arte que (pseudo densamente) se preze - terá imaginado franca e fragorosamente errado: do começo ao fim do espetáculo, num único ato de medida confecção, o drama ri do mundo e de si mesmo, pelo viés da pantomima, do mais circense teatro, do deboche farsesco e histriônico, numa sarabanda de outono e numa rajada de balas.
Evoé! Os deuses do teatro fizeram as pazes com Curitiba.





Outra estréia adiada

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