"Máfia no Divã" chega às locadoras
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quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 04 (AE) - Paródia costuma ser um gênero ingrato. Ainda mais quando brinca com aquele que é quase um subgênero do cinema norte-americano, o filme de Máfia, e ainda por cima traz no elenco Robert De Niro, o tipo ideal do "capo"
abaixo apenas de Marlon Brando, que imortalizou o fictício d. Corleone, em "O Poderoso Chefão". Em "Máfia no Divã", de Harold Ramis, De Niro é um bandidão em crise psíquica. Ele apresenta sintomas da síndrome do pânico, sua nas mãos, tem choro fácil e imotivado, é emotivo - essas coisas. Todas indignas de um bom macho ítalo-americano, acostumado a despachar desta para melhor quem atravessa a sua frente.
E quem se interpõe no caminho de De Niro é o infeliz psicanalista vivido por Billy Crystal. A princípio, ele não quer aceitar o paciente, mas este lhe faz uma oferta que não poderia recusar, expressão clássica da Máfia. De Niro pede ajuda, acha que tudo vai resolver-se de uma hora para outra, mas cedo descobre que está enganado. Precisa de tempo. E acha que tem exclusividade na agenda do pobre psicanalista que, ainda por cima, está planejando casar-se.
A comédia funciona bem enquanto acompanha outro dos clichês da psicanálise, a transferência, os sentimentos pouco racionais que o paciente nutre por seu analista. Claro, De Niro exagera no tipo. Vai do amor ao ódio profundo de um momento ao outro. É caricatura, mas baseada no que acontece de fato. No entanto, o filme só tem mesmo a pretensão de fazer rir. E de maneira pelo menos um pouco inteligente. Não chega a ser um Woody Allen, em sua metapsicanálise, mas ainda assim funciona.
E há algumas cenas antológicas, como a interrupção do casamento do analista quando o paciente entra em crise do outro lado do país. Ou as intervenções do guarda-costas de De Niro, o único a saber o segredo, ou seja, que o tough guy respeitado por todos não pode assistir a um filminho triste na TV que desaba em prantos. Como pastiche da situação analítica é só isso. Talvez um pouco mais, se se pensa que o filme assinala o crepúsculo do macho mesmo em seus últimos redutos, no caso, o crime organizado de origem italiana nos Estados Unidos.
Outra sequência muito boa é aquela em que Crystal é obrigado a substituir o capo, que caiu em depressão profunda, numa reunião entre mafiosos de todo o país. Ele faz o papel de consegliere, o conselheiro dos chefes, aqueles tipos que propõem uma estratégia de luta em caso de conflito e devem decifrar as estratégias dos antagonistas. Quem viveu um consegliere inesquecível foi Robert Duvall, também em "O Poderoso Chefão". Crystal, claro, não é do ramo, e se atrapalha todo. Nem consegue pronunciar a palavra italiana que designa o seu cargo fictício. Mas acaba se virando.
Em termos de ritmo, a comédia não satisfaz inteiramente. No começo, vendo aquele marmanjão machista pedir auxílio em seus conflitos íntimos, você espera um filme para morrer de rir. Depois, o filão se vai esgotando e a história passa a viver, ou a sobreviver, de cenas mais inspiradas, como as descritas acima. A falta de uma linha evolutiva mais coerente pesa sobre o efeito cômico de "Máfia no Divã". No entanto, quando se pensa que não há nada mais a apresentar, surge uma boa gague ou uma situação inesperada e o interesse renasce. Mas não há uma sequência uniforme que torne o riso contagiante.
Ramis é um bom diretor. Basta lembrar do seu ótimo "Feitiço do Tempo", em que brinca com um dado de literatura fantástica, a recorrência indefinida de um mesmo dia. Uma boa idéia de partida, convenientemente desenvolvida. Faltou isso a "Máfia no Divã". A hipótese é boa, as consequências que o roteiro tira delas nem tanto. Não explora a fundo a idéia, daí os vazios que se observam no interior da história. Serviço - "Máfia no Divã". Comédia dirigida por Harold Ramis com Robert De Niro e Billy Crystal. Distribuição: Warner


