Curitiba -''Poucos municípios no Paraná tiveram a honraria de receber um maestro como esse.'' A declaração emocionada da pianista e compositora Luna Remer resume a admiração pelo maestro Alceo Ariosto Bocchino, conhecido nacionalmente e internacionalmente, no entanto, um pouco esquecido por aqui, sua terra natal, o Paraná.

Nascido em Curitiba no dia 30 de novembro de 1918, Bocchino tem um currículo invejável na música erudita brasileira. Ligado ao piano desde pequeno, aos 5 anos, aprimorou-se muito cedo, com orientadores do porte de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Dinorah de Camargo. Ainda muito novo, acompanhou o cantor italiano Tito Schipa em turnê pelo Brasil. Em seguida, lecionou no Conservatório de Santos e trabalhou em rádios paulistas.

Formou-se em Direito mas logo desistiu dessa carreira e voltou a se dedicar integralmente à música. No Rio de Janeiro, cidade onde mora até hoje, foi assistente do maestro Eleazar de Carvalho na Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), deu aulas para um então novato talentoso chamado Tom Jobim e, durante os anos 60 e 70, regeu orquestras como a Filarmônica de Sofia (Bulgária), a Sinfônica de Bilbao (Espanha), a Filarmônica de Lisboa (Portugal) e a Forth Worth Symphony (EUA).

Além de fundador da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, é também um dos criadores da Orquestra Sinfônica do Paraná, esteve na inauguração do Teatro da Reitoria da Universidade Federal (UFPR), é membro da Academia Paranaense de Letras, émerito diplomado pelo governo do Estado e atualmente leciona Composição e Regência na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.

Bocchino esteve em Curitiba e na Lapa, durante o aniversário da cidade histórica, para receber a medalha General Carneiro, devido ao seu engajamento por popularizar a luta do ''Cerco da Lapa'' em sinfonia. Em plena atividade profissional, aos 88 anos, o maestro ainda participou de encontro com alunos e professores de música e também falou sobre sua carreira, a vontade de realizar um festival na Lapa e como se sente um pouco esquecido pelos paranaenses.

PARANÁ
''O que me comove no Paraná é o Paraná. É a vida paranaense, a mentalidade do povo paranaense, que é uma mentalidade, eu diria, higienicamente perfeita. Porque aqui você pode assumir compromissos e pode cobrar compromissos assumidos que você tem a resposta''

ORQUESTRA SINFÔNICA DO PARANÁ
''Conheci um novo tempo no Paraná justamente com a criação da Orquestra Sinfônica do Paraná. Nossa Osinpa, que criou tanto problema por causa da sigla. Isso foi um lado negativo. Foi o começo de pequenos atritos. Depois as vaidades pessoais, não foram poucas que encontrei por aqui.

Fizemos uma seleção de músicos daqui e de maestros. Fizemos o primeiro concerto de inauguração da Orquestra Sinfônica Paranaense e depois voltei para o Rio. Passava aqui uma semana, às vezes duas semanas ou um mês, ensaiando, porque no começo os músicos eram muito jovens, inexperientes, e nem todos tocavam bem. Mas em um determinado momento tínhamos uma orquestra e cheguei a dizer que era a melhor do Brasil. Uma orquestra que enfrentou três vezes a Nona Sinfonia.

Foi uma coisa realmente gratificante. Conheci maestros na Europa que nunca fizeram a Nona Sinfonia uma única vez, porque é um conjunto de fatores, precisa ter um coro muito bom, quatro solistas bons. São coisas que me ligam muito a Curitiba, porque a Nona Sinfonia eu nunca fiz no Rio.

CURITIBOCA
''Um rapaz de Goioerê propôs na Câmara e ganhei o título de benemérito no Paraná, mas não ganhei de curitibano. Por quê? Porque fiz uma musiquinha que, sem querer, ofendi os curitibanos. Eu fiz o ''Divertimento Curitiboca''. Mesmo de longe, sabia que ''curitiboca'' é uma espécie de insulto. Mas vejam bem, sou carioca honorário, com diploma e tudo. ''Curitiboca'' vem a ser metade curitibano e metade carioca. E aí eu saí pela tangente, explicando tudo. Mas não querem saber, a maioria se considera ofendida.''

VILLA-LOBOS
''Fui aluno e intérprete do Villa-Lobos para Música de Câmara. Ele viajou sempre para a Estados Unidos e Europa, a maior parte da obra dele foi gravada na França e também nos Estados Unidos.''

LAPA
''A Lapa é uma coisa linda. Sou muito amigo da família do David Carneiro (historiador). E o David me conheceu meio garotão, tocando piano, compondo algumas musiquinhas. E ele sempre me dizia: ''Olha a Lapa tem isso...'', e me contava toda a história da Lapa. E aquilo me chocava.

Até que belo dia, já casado, ele me convidou para uma visita à Lapa, cuja tarefa era transladar os restos mortais dos heróis que estavam no cemitério, botar numa nova caixa para depois colocar no panteão. A um dos restos mortais coube a mim fazer essas transladação. Fiquei muito comovido com isso, lendo o livro do David, que é uma lição de paranismo, de civismo e moral''.

SINFONIA DO CERCO DA LAPA
''A história sintetizada dos acontecimentos. O primeiro movimento eu chamei de 'Maragatos', que corresponde à invasão dos que vinham do Sul com armamentos, mais de 3 mil homens, para lutarem contra 600 civis.

O segundo movimento é a 'Trégua'. Não podia, em uma sinfonia, obedecer as regras tradicionais, que seria, no segundo movimento, criado por Beethoven, o divertimento e alegria. Mas no momento desse é impossível chamar de divertimento, então chamei de 'Trégua', justo para uma ação militar.

O terceiro movimento é 'Oração aos Mortos', que gosto muito. E o quarto movimento, 'Maragatos e Pica-Paus', seria o ápice dessa luta, até o fim. Ela é sinfonia porque tem os quatro movimentos, e não é um poema sinfônico porque a música não segue rigorosamente a poesia, ou a literatura, não segue como se fosse uma coisa só. Nessa síntese, a história está aí.

Um momento heróico. Um dos nossos homenageados também perguntou: 'Por que se fala tanto de Canudos, do Nordeste? Por que se fala tanto de outros movimentos fora do Paraná e não se fala do Cerco da Lapa?' Parece que o próprio Paraná se esqueceu disso. O Contestado também foi um momento terrível e não se fala nisso. Foram momentos que orgulham a gente do Paraná e deveriam orgulhar à todos, mas não acontece.''

ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA
''Quando estava no rádio, muitos dos músicos eram da Orquestra Sinfônica Brasileira. E diziam, 'por que você não rege a OSB?'. Eu dizia, 'é porque não me convidam'. Essa comissão de músicos forçou minha indicação para ser assistente do Eleazar de Carvalho, um dos maiores regentes brasileiro. Ele me deu uma prova muito difícil e eu passei.

Ele então me disse que ia viajar e eu iria reger a orquestra no outro dia. Muitos dos músicos da orquestra eram amigos meus da rádio e então eles me estimulavam. Daí eu perguntei para ao Eleazar o que eu deveria ensaiar. Ele me indicou a Sagração da Primavera, do Stravinsky, e o Concerto para Orquestra, de Béla Bartok.

São duas obras dificílimas para regência. E eu, com toda a coragem, perguntei a ele qual das duas ele gostaria que eu ensaiasse. Ele me disse que poderia ser qualquer uma das duas e peguei a que era um pouquinho mais fácil, a Concerto para Orquestra.

Na manhã seguinte, estava com a orquestra em frente e fui franco: 'Minha gente, não conheço a obra, mas vou fazer o possível'. Os músicos amigos meus me incentivaram e aos poucos, lutando, afinal, acabei ensaiando a obra toda. No outro dia, o Eleazar perguntou aos músicos que parte haviam ensaiado comigo e eles disseram que ensaiaram a obra toda. O Eleazar arregalou os olhos e depois ficou muito meu amigo. Tivemos alguns atritos mais tarde, ficamos amigos novamente e eu sei que ele morreu falando no meu nome. Falando para o filho dele, que veio me abraçar chorando, em São Paulo, quando regi uma orquestra lá na Osesp.''

TOM JOBIM
''O Tom Jobim foi meu aluno. Ele teve outro professor no piano, mas na composição eu fui o primeiro. Isso foi na década de 50 ou 60. Ele era um garotão, botei ele como pianista da orquestra da Rádio Clube e ele ficava muito nervoso porque tinha que obedecer a regência. Não era propriamente um músico erudito.

Eu diria que era mais do que isso porque o talento dele era excepcional. Aquele menino era genial. E sempre digo que os músicos brasileiros, os populares, são antes de serem músicos, poetas. Eles unem essas duas coisas e fazem essas maravilhas, uma poesia linda.''

FESTIVAL DA LAPA
''Acho que o festival é necessário, porque a Lapa é uma cidade nobremente turística. Está tudo organizado e o que pode acontecer no futuro foi entregue ao prefeito, que ficou entusiasmado. A Lapa é esquecida mas, se surgir um festival como esse, pode vir gente de todo o Brasil e mesmo do exterior, como vem gente para Foz do Iguaçu. Foi muito bem planejado, mas ainda não vingou porque precisa de patrocínio.''

DIREITO
''Concluí o curso de Direito e briguei com o escrivão, no primeiro processo, e depois com o juiz, daí encerrei. Participei também como auxiliar de defesa de um criminoso horroroso, que degolou a noiva em plena rua, aqui na José Loureiro. Estudamos o processo e absolvemos esse criminoso horroroso, foi uma grande injustiça, ele deveria estar apodrecendo na cadeia até hoje. Mas a música, nunca deixei de lado, mesmo quando fazia Serviço Militar. Nunca abandonei o piano.''

ESQUECIMENTO
''A nova geração não tem obrigação de conhecer os músicos anteriores. Mas precisam aprender que existem outros músicos e outra gente que podem levar avante esse desenvolvimento musical e cultural, de uma maneira geral. Aqui ninguém me conhece se eu passo na rua, um ou outro amigo de universidade, da época que estudei Direito. Aqui ainda me perguntam como se escreve meu nome.

Sendo maestro emérito e com diploma do governo e tudo, tenho uma posição acima do regente titular (da Orquestra Sinfônica do Paraná). Mas o pessoal não tem a delicadeza de me comunicar a programação ou mesmo fazer uma consulta a mim. É como se eu não existisse. Mas citam o nome, está lá. Se a coisa está bem, levo a parte dos louros, sou emérito de uma orquestra que se saiu bem, mas quando sai ruim, também levo as consequências más. Que aliás, tenho sabido, não tem sido muito boas mesmo ultimamente, não sei o que está acontecendo. Isso realmente me dói um pouco. Poderiam se lembrar um pouco mais de mim, não para reger, mas pelo menos para consultar.''

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