Figura marcante nos tempos dos grandes bailes londrinenses, o maestro Gervásio Basílio Nunes dedicou parte dos seus 90 anos à música, frente à orquestra que encantou e embalou muitas noites na cidade. Gervásio e sua orquestra adquiriram fama não só no Paraná, mas em várias cidades do interior de São Paulo e outros estados.
O maestro, que faleceu por complicações cardíacas na semana passada, deixa saudades. Gervásio chegou em Londrina no início da década de 50 e logo conquistou a amizade de muitos.
Professor de música e coordenador da Banda Municipal de Cambé, Gervásio trabalhava ultimamente no Grêmio Literário e Recreativo Londrinense, clube onde se apresentava junto com sua orquestra no início da carreira em Londrina.
O atual presidente do Grêmio, Jorge Scaff, que conviveu diariamente com o maestro nos últimos 21 anos, conta que Gervásio se aposentou no clube, mas continuava como funcionário. ‘‘Na verdade, ele não tinha mais condições de saúde, mas para ele o emprego era muito importante. Gervásio tinha que ter uma motivação e fazia questão de justificar seu salário’’, diz.
Scaff conta que Gervásio ainda fazia alguns serviços de banco. ‘‘Mas o que ele não sabia era que, sempre que saia com a sua pastinha em direção a um banco, nós mandávamos um funcionário para acompanhá-lo, sem que ele soubesse’’, revela Scaff, ao justificar a preocupação dos funcionários com o maestro. ‘‘Gervásio era uma pessoa extraordinária, responsável, atenciosa e que sempre quis ser útil.’’ O presidente do clube observa que o maestro ia todo dia ao trabalho, apesar de quase não ter forças para caminhar. ‘‘Às vezes ele não podia comparecer e ficava bastante preocupado em justificar sua falta. Várias vezes sugeri que ele ficasse em casa para ver um jogo do São Paulo, time pelo qual torcia. Mas ele fazia questão de estar no emprego.’’
A vida de Gervásio em Londrina foi no Grêmio, opina Scaff. O presidente do clube lembra que o maestro, que era paulista, esteve na cidade pela primeira vez para tocar num baile do Grêmio. O presidente do clube à época gostou tanto da orquestra que convidou o maestro para ficar na cidade. ‘‘Foi uma vida dedicada e o Grêmio deve muito a ele’’, admite Scaff.
Até pouco tempo, o maestro Gervásio tinha uma sala no Grêmio para dar aulas de música. ‘‘Era a sala do Gervásio. O clube cedia o espaço para ele, como reconhecimento pelo que ele fez. Gervásio merece todo nosso respeito. Sempre foi um fiel companheiro. Muito franco, sincero... bravo, às vezes. Ele deixou saudades.’’
O radialista e apresentador de TV Aymoré Kley lembra que frequentou muitos bailes no antigo Grêmio com a orquestra do maestro Gervásio. ‘‘Naquela época, os artistas e as orquestras eram contratados pelo clube em parceria com a Rádio Londrina, onde eles faziam audições.’’ Depois, Gervásio foi jurado do programa ‘‘Festival de Música Sertaneja’’, comandado por Aymoré Kley. ‘‘Eu me dava muito bem com o maestro. Ele foi jurado do meu programa durante muito tempo. Ele me acompanhava sempre. Trabalhamos juntos na TV Coroados de Londrina, depois em Maringá e na TV Tibagi, de Apucarana. Voltamos para Londrina na TV Coroados e depois fomos para a Tropical.’’
Aymoré Kley lamenta o fato de o maestro deixar sua atividade musical aos poucos, por estar doente. ‘‘Não há dúvidas de que foi uma grande perda. Ele foi um pioneiro que colaborou muito com a exibição da sua orquestra em Londrina e muitas outras cidades.’’
Mas o maestro Gervásio não foi marcante só para quem conviveu com ele nas décadas de 50 a 70. A auxiliar de escritório do Grêmio, Cláudia Helena Paixão, de 33 anos, recentemente fazia aulas de flauta doce e transversal com o maestro, que a ensinava há mais de três anos. Cláudia lembra que Gervásio era um ‘‘professor bravo, exigente, mas muito bom’’. ‘‘Ele era uma pessoa legal. Estava sempre à disposição para dar aulas e me incentivava muito a tocar flauta.’’ A aluna comenta que o maestro ficava triste por não conseguir mais ler as partituras. ‘‘Mas ele ainda tocava muita música de cabeça.’’
Os funcionários do clube londrinense apreciavam o bom papo de Gervásio Nunes. ‘‘Ele ficava aqui conversando com a gente’’, conta o gerente do Grêmio, Edno Lombardi, que conviveu com Gervásio por 20 anos e admite que, com sua morte, fica uma lacuna difícil de preencher. ‘‘O maestro gostava muito de conversar e contar as histórias do Grêmio antigo, da orquestra e da vida dele...’’

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