Mães na telona: há vida além dos estereótipos
A sétima arte serviu como referência e ferramenta de aprendizado para o mundo ao nosso redor, capturando amostras sociais de cada época
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de maio de 2025
A sétima arte serviu como referência e ferramenta de aprendizado para o mundo ao nosso redor, capturando amostras sociais de cada época
Carlos Eduardo Lourenço Jorge - especial para Folha 2 

Criar uma galeria de mães de cinema não é novidade em textos na mídia, produzidos pelo jornalismo, especializado ou não. É uma espécie de tradição mantida todos os anos. Então, não se surpreenda se você a encontrar novamente, mas com outros títulos, com mães mais ou menos inesquecíveis, a depender do fio da memória (cinéfila, no caso deste redator). E além disso, essas mulheres aqui hoje lembradas são mães coragem, mães modelo (e não aquela castradora como a sra. Bates, aquela do muito célebre filho psicótico), mães cujas personalidades vão além da abnegação.
O cinema utiliza estereótipos desde o início de sua história, no finalzinho do século 19. Isso teve um efeito imediato no público. A sétima arte serviu como referência e ferramenta de aprendizado para o mundo ao nosso redor, capturando amostras sociais de cada época nas histórias que o público apreciou na tela grande.
Diante dessa enorme atenção dada ao entretenimento, as mulheres quase sempre tiveram papéis coadjuvantes, e em sua maioria estereotipados, retratados sob uma perspectiva masculina, dada a maior quantidade de homens que se dedicaram à criação. Mulheres submissas, esposas obedientes, amores misteriosos, femmes fatales, personagens secundárias a serviço das ações do protagonista... E também mães.

A maternidade retratada no cinema daria material suficiente para muitos textos. No entanto, a ideia de mãe que prevaleceu na ficção sempre foi a de uma mulher devotada aos e pelos seus filhos. Exemplos desse modelo continuam a ser vistos, mas as coisas mudaram (para melhor). Felizmente, uma boa série de diretoras surgiu (e surgiu) para contar, narrar, mostrar e afirmar que há vida além dos estereótipos. Novos cineastas oferecem uma visão diferente, como esses diretores que vale a pena ficar de olho.
Muitos filmes apresentam personagens principais com filhos ou filhas, que também tiveram tempo para se desenvolver como indivíduos, com carreiras que merecem roteiros, como muitos de seus colegas. Essas personagens, portanto, se distanciam do estereótipo que a sociedade defende como "boa mãe". Você sabe, a mãe trabalhadora que vive para e por seus filhos, o modelo ou aquela que dita o sistema, o oposto da mãe.
E então surge a pergunta: O que é uma mãe ruim ? E uma boa mãe? O adjetivo nada mais é do que um estigma social da época em que vivemos, que julga e categoriza principalmente as mulheres. Ninguém diz o que é uma boa mãe, e o que eles estão se referindo é à abnegação total, ou seja, uma impossibilidade.
O cinema tem fornecido exemplos de mães cujas personalidades vão além da mãe abnegada, com muito mais nuances do que aquelas que lhes foram conferidas por seus filhos. Mulheres imperfeitas – assim como os homens — que nos proporcionaram momentos maravilhosos com as mais diversas narrativas: professoras, ladras, astronautas, garçonetes, prostitutas e até seres sobrenaturais. Todas elas tinham filhos sob seus cuidados e todas demonstraram que a maternidade não é o fim da individualidade. A vida de uma pessoa continua depois do parto, e a vida profissional e as preocupações dela se estendem além de casa.
Abrindo esta lista de exemplos mais recentes está Olivia Colman no filme “Filha Perdida” (2021), dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal. Vamos rever aqui outras mulheres fascinantes que conhecemos na chamada sétima arte e cujas histórias nos surpreenderam. Bom lembrar: são filmes muito próximos desse nosso momento, quer dizer, de mulheres-mães conflituosas, modernas, contemporâneas.
Pedro Almodóvar tem as mães muito presentes em sua obra. Com Raimunda, vivida por Penélope Cruz em “Volver” (2005), diretor e atriz recriaram uma mãe que abrangia todo o universo de ambos : agressiva, realista, apaixonada, atrevida e uma típica mulher da região hispânica de La Mancha, quer dizer, manchega, bem manchega. Mas universalmente quixotesca.
Em “A Jornada” (2016) , a astronauta Sarah (Eva Green) tem um grande sonho: embarcar em uma desafiadora missão espacial, mas que a manterá longe da filha por muitos meses. O filme da francesa Alice Winocour apresenta uma super-heroína da vida real em sua vida cotidiana, que tem aspirações maiores e que vão além de suas responsabilidades como mãe.
Nasceu um ícone. E não apenas porque leva como emblema uma música própria. Em “A Primeira Noite de Um Homam”, Anne Bancroft assumiu um personagem muito arriscado para 1967, e que deixou o jovem Dustin Hoffman enlouquecido, também porque ele iria se apaixonar pela filha da sedutora Mrs. Robinson Por alguma razão (lembrem-se e/ou descubram) o filme é um símbolo da sedução de que uma mãe adiante de seu tempo é capaz.

Poucos personagens podem ser a um só tempo tão aterrorizantes, sensuais e tão estranhamente sensatos (naquele divertido universo disfuncional) quanto a mãe desta tal “Família Adams”, a melhor de todas as muitas versões dos personagens e situações cômicas criados pelo cartunista Charles Adams. Ela, Mortícia (Angelica Huston) não perde um pingo de elegância, seja aconselhando sua filha Wednesday a usar armas poderosas ou relatando as mortes de seus ancestrais. Somente um fair play de mãe disposta a tudo pode administrar aquele núcleo familiar.
Em “O Iluminado”(1980) , Shelley Duval é mãe Wendy, uma das vítimas mais emblemáticas do cinema de terror. O pânico constante em seu rosto enquanto corre para salvar o filho Danny pelos corredores do Overlock Hotel faz parte da história do cinema. E daquilo que você pode imaginar sobre a preservação de sua espécie, e de nossa saúde mental, a qualquer custo.

O trabalho de Linda Hamilton como a segunda Sarah desta lista como mãe em “O Exterminador do Futuro”(1984) é louvável, e ela é sempre lembrada como uma das melhores mães do cinema contemporâneo. Mas tinha que ser também mencionada aqui porque seu personagem é muito mais do que a mãe de John.
Aquela casa, aquela obsessão em manter a escuridão, aquela atmosfera latente por toda a mansão, aqueles fantasmas... Em “Os Outros” (2001), a Grace vivida com valentia e sensibilidade por Nicole Kidman faz tudo para proteger seus filhos da luz e dos "outros", que parecem querer destruir sua pacífica vida cotidiana. Grande momento da maternidade na tela.


