MÃE DE PRIMEIRA GRANDEZA
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de novembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O cineasta Glauber Rocha deixou uma guardiã renhida para cuidar de seu espólio. Ele está sendo homenageado esta semana na França com uma retrospectiva de sua obra no Festival dos Três Continentes de Nantes. O que deveria ser motivo de orgulho, porém, tirou a mãe do artista totalmente do sério.
Dona Lúcia Rocha, 81 anos, está enfurecida por não ter sido convidada para o evento. Estou chocada diz ela por telefone, do Rio de Janeiro, em entrevista exclusiva à Folha 2. Quando eles estavam organizando o festival, mandaram vários e-mails solicitando material. Mandei cópias de quatro filmes (Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Idade da Terra e o Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro). Só que depois de me pagarem, não deram nenhuma satisfação, sequer me avisaram quando o festival iria começar. Acho que eu merecia alguma consideração.
O Festival dos Três Continentes está na 22ª edição. Começou esta semana e prossegue até a próxima terça-feira. Sua mostra competitiva é aberta à produção cinematográfica da América Latina, África e Ásia. A última vez que o Brasil abocanhou o troféu máximo foi em 1980 com o filme Eles não usam Black-Tie, de Leon Hirzmamn.
Além de Glauber, o festival já homenageou o cineasta Nelson Pereira dos Santos e fez uma retrospectiva do cinema brasileiro. Mas o evento não é o único alvo de críticas de dona Lúcia Rocha, responsável pela manutenção do Museu Tempo Glauber, que reúne no Rio todo o acervo do filho. Órgãos públicos, biógrafos e editoras também saem chamuscados de seu rosário de lamentações.
O Museu, segundo ela, precisa urgentemente de verbas para a informatização do material. Ela conta que formalizou um projeto reivindicando auxílio para a Secretaria de Cultura do Estado do Rio, mas não obteve nenhum resposta. Vem gente do mundo inteiro aqui para pesquisar diz O problema é que tudo ainda está em papel e corre o risco de se desgastar com o manuseio. Por isso, tenho até evitado as visitas. Estou cansada de pedir verbas para os poderes públicos, fico parecendo uma mendiga.
O Museu recebe R$ 3.500,00 por mês da Riofilme, que cobre as despesas básicas e os salários de dois funcionários. Há pouco, sensibilizado com as carências do casarão, o cineasta Walter Salles doou um computador de última geração para dona Lúcia. Agradeço, mas preciso de dinheiro para pagar todo o serviço de informatização. Não tenho mais idade para ficar sentada em frente de um computador reclama.
O Museu Tempo Glauber está instalado num velho casarão da Rua Sorocaba, no bairro carioca de Botafogo. Seu acervo guarda toda a obra do mais importante cineasta do país e principal diretor do Cinema Novo, movimento que sacudiu a cultura brasileira nos anos 60. O baú inclui poemas, cartas, desenhos, roteiros, fotos e entrevistas muita coisa que jamais veio a público.
Dona Lúcia não se conforma com o descaso do mercado editorial. Diz que fez contato com diversas editoras e nenhuma se interessou em reeditar os livros do filho (Revolução do Cinema Novo, Poemas Escolhydos, Roteiros do Terceiro Mundo e O Século do Cinema todos já esgotados). Esses títulos foram publicados pela Alhambra, que já liberou os direitos para futuras reedições revela ela.
Glauber, segundo sua mãe, deixou ainda 10 volumes inéditos. Quando o assunto é livro, porém, o que mais faz dona Lúcia alterar a voz e soltar a língua são as biografias já publicadas sobre o cineasta. Quiseram ganhar dinheiro em cima de Glauber. Nem tiveram coragem de me pedir fotos dele diz, a respeito de Tereza Ventura e João Carlos Teixeira Gomes, autores respectivamente de A Poética Polytica de Glauber Rocha e Glauber Rocha, esse Vulcão.
O primeiro livro foi lançado há poucos meses pela Funarte, com prefácio de Márcio Souza, presidente da entidade. Esse livro é uma porcaria, é horrível esbraveja dona Lúcia. A autora apenas copiou o livro de João Carlos, que é outro impostor. Esse João Carlos realmente foi amigo de Glauber na infância, na Bahia, mas depois nunca mais se encontraram. Há muitas mentiras no livro dele, como escrever que Glauber andava nu pela casa e comia com a mão. Isso nunca existiu! Li apenas alguns trechos numa tarde e descobri 40 erros.
Com tantas queixas a fazer, dona Lúcia encerrou a entrevista sem mencionar eventuais homenagens programadas para 2001, quando serão celebrados os 20 anos da morte do filho ilustre. Sabe-se, porém, que seu neto Erick Aruak Rocha, está envolvido em dois projetos cinematográficos começando a seguir os passos do pai.
Hoje, aos 22 anos (tinha 3 anos quando Glauber morreu), ele trabalha simultaneamente como assistente de direção de Silvio Tendler no documentário Glauber e em seu próprio filme Rocha que Voa, co-dirigido por Bruno Vasconcelos e que resgata a passagem do pai por Cuba.


