Mãe coragem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Vida e morte. Muito ar. Pouco ar. A respiração da vida misturando-se com o hálito da morte. A expiração da morte mesclando-se com o aroma a vida. E a inevitável percepção de que ambas caminham lado a lado.
Morte e vida estão na essência do novo romance do escritor londrinense Domingos Pellegrini. ''Herança de Maria'', editado pela Record, será lançado amanhã, às 19h30, na Central de Apartamentos Decorados Plaenge de Londrina. Apesar da presença da morte, a obra é uma grande e bela história de afirmação da vida.
Narra a história de um escritor com a mãe vivendo numa cama, em estado vegetativo. Entre os cuidados diários necessários, ele divide seus pensamentos em duas frentes. De um lado, a ideia de cometer a ortotanásia. De outro, as lembranças de sua relação com mãe ao longo do tempo. Imerso nesse processo, percebe que a grande herança que recebeu da mãe são as lembranças. Uma espécie de revelação silenciosa.
Uma das obras mais sentimentais de Pellegrini, ''Herança de Maria'' também é o romance mais autobiográfico de sua autoria. A personagem Maria segue fielmente a figura real de sua mãe, falecida há três anos. Uma mulher que passou com coragem por todo tipo de transformação ao longo da existência.
Um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea, ganhador de seis Prêmios Jabuti, Domingos Pellegrini reafirma sua conduta de criar histórias de conduta moral. A seguir ele fala sobre ''Herança de Maria'':
''Herança de Maria'' é claramente o mais sentimental de seus romances. Como foi escrevê-lo? Muitas lágrimas rolaram?
Esse livro levou oito anos para ser escrito, pois teve quatro versões, com quatro títulos diferentes. No começo, era ''Coração de Pilão'', memórias familiares com muitas fotos e muita amargura. Depois, passou a ser ''Cacos de Mosaico'', com poucas fotos e menos amargura. Em seguida, quando minha mãe já passava por seu processo terminal, o título passou a ser ''Matando a Mãe'', pois me vi diante do dilema de deixá-la vegetar indefinidamente ou praticar ortotanásia, que então passava a ser permitida pelo novo Código de Ética Médica. O título era tão ruim como a ideia de ter de praticar a ortotanásia. Mas minha mãe resolveu o problema, indo embora tranquilamente, e sua morte me revelou que as lembranças do livro eram minha herança dela, daí ''Herança de Maria''. Nesse processo houve muitas lágrimas e, também, muita alegria, orgulho e entusiasmo, pois as lembranças de minha mãe moveram e todo dia movem esses sentimentos.
A figura da personagem Maria é singular e reveladora. O que existe de realidade e de ficção nela? ''Herança de Maria'' pode ser considerada sua obra mais autobiográfica?
Calculo que uns oitenta por cento dos fatos do livro são autobiográficos, e outros entraram como amarração entre os fatos verídicos ou como visão de época, pois o livro cobre meio século de vida brasileira, com suas contradições sociais e políticas e os costumes de classe média. Isso faz pano de fundo para os dois protagonistas, mãe e filho. É, assim, minha obra mais autobiográfica, sim.
Em seu romance ''Terra Vermelha'' (1998), há a figura marcante da personagem Tiana. Agora, em ''Herança de Maria'', surge Maria, outra forte personagem feminina. As personagens femininas fascinam você?
Engraçado que meus escritores formadores, que mais influenciaram minha escrita, Hemingway e Graciliano Ramos, têm poucas e fracas personagens femininas, tanto que a mais forte personagem feminina de Graciliano é a cachorra Baleia, em ''Vidas Secas''. A presença marcante de mulheres na minha literatura pode ser porque vivi a ascensão do feminismo, e também por ter avós, mãe e várias tias de personalidade forte. Dalva, minha mulher, também me abre sempre os olhos para uma visão menos machista e unilateral da vida. Não existe fruto sem flor.
A superação das dificuldades da vida, a afirmação da vida, é uma constante ao longo da história narrada. Ao mesmo tempo, a presença da morte também é uma constante. Após viver toda essa experiência com sua mãe, e escrever sobre essa experiência, sua visão da vida e da morte mudou?
Manuel Bandeira escreveu ''bendita a morte, que é o fim de todos os milagres''. Penso que a morte é também um milagre, renovando a vida. A aceitação e compreensão da morte é a maior conquista de nossa vida. Quem morre tranquilamente, sem medo e sem amargura, como minha mãe morreu, é um vencedor. Pouco antes de entrar em semicoma, passando a vegetar, já emudecida, nos dava olhares de pura ternura e paz. Quando fechou os olhos, ainda sem morrer, a gente sabia que ela estava já em perfeita paz. As lembranças de minha mãe são uma grande herança, e sua morte foi simples e bela como um poente.
Apesar da história narrada no romance acontecer em Londrina e região, não existe nenhuma nomeação geográfica de cidades. A própria palavra Londrina, por exemplo, não aparece nenhuma vez no livro. Qual o motivo?
Eu quis universalizar a narrativa, e por isso também narrei na terceira pessoa, em vez da primeira pessoa. Mantenho distância tanto do regionalismo quanto do individualismo, focando os fatos como pertencentes a todos. A intenção foi focar os acontecimentos de nossa família como próprios da família brasileira, e a vida de minha mãe como a vida das mulheres no meio século mais transformador da História em todos os tempos. Assim, a história se passa em cidades indefinidas, para o leitor situá-la em qualquer cidade, esperando que todos consigam ver um pouco a própria mãe na minha mãe, sua vida em nossa vida.
Serviço:
- Herança de Maria
Autor - Domingos Pellegrini
Editora - Record
Páginas - 416
Quanto á- R$ 44,90
Lançamento em Londrina
Quando - Amanhã às 19h30
Onde - Central de Apartamentos Decorados Plaenge (Av. Madre Leônia Milito, 1700)


