Madura, porém repetitiva
Chegou esta semana às lojas norte-americanas um dos lançamentos mais esperados dos últimos tempos, o segundo disco de Alanis Morissette, Supposed Former Infatuation Junkie. Sob a expectativa de não fazer feio perto dos 28 milhões de unidades de Jagged Little Pill, seu álbum de 1995, a cantora buscou inspirações orientais, tornou suas letras ainda mais confessionais e manteve a mesma produção de Glenn Ballard. O resultado é interessante e tem tudo para se tornar fenômeno de vendas, ainda que sem o mesmo impacto de seu trabalho anterior.
Alanis, agora com 24 anos, é uma sobrevivente. Ela conseguiu deixar para trás uma patética carreira infanto-juvenil no Canadá, que incluía looks de deixar Céline Dion com vergonha, para conquistar as paradas do mundo todo com hinos como Hand in My Pocket, You Oughta Now e Ironic. Ela fez 18 meses de turnê, promoveu o trabalho à exaustão em todo o mundo, lançou um vídeo ao vivo e tirou férias. O período de reclusão, que incluiu uma temporada na Índia, parece ter sido a última etapa da entrada da cantora na fase adulta.
Pelo que se pode ver por suas novas músicas e recentes entrevistas, ela está mais madura, intensa e com mais vontade de remexer em suas relações passadas. O problema é que a Alanis atual é aquele tipo de garota com quem pouca gente gostaria de se envolver: honesta, mas chegada em um drama a dois.
Supposed... tem várias faixas boas, a começar pelo primeiro single, Thank You, que vem escalando as paradas dos Estados Unidos e cujo videoclipe, em que Alanis aparece nua andando pelas ruas de Nova York, vem sendo bem executado pela MTV e pelo VH-1. A música tem uma melodia bonita e um refrão que agradece à Índia, ao terror, ao silêncio e à desilusão. Baba é também interessante, com influência indiana e letra com referências à iluminação das pessoas.
O principal defeito do disco é o abuso da fórmula de repetir frases em cada música. Pelo menos 10 das 17 faixas de Supposed... utilizam (não tão brilhantemente) o recurso de empilhar frases que começam com as mesmas palavras. Uma das mais chatas nessa linha é Are You Still Mad?, em que ela pergunta 15 vezes se o namorado ainda está bravo com ela, mudando apenas o motivo a cada vez. Outro exemplo é That I Would Be Good, que explora em 14 frases iguais a certeza de que ela seria boa mesmo que.... As repetições ainda têm o agravante de que, em geral, não concluem muita coisa.
Alanis acerta muito mais nas faixas em que deixa a fórmula de lado. A bela One tem uma das melodias mais criativas, que serve de embalagem para uma série de auto-críticas. A cantora se diz hipócrita e ciumenta e reconhece ter abusado do poder. É incrível o quão pessoal ela ficou no novo disco, que parece uma colagem de recordações e pensamentos dos últimos tempos. Unsent, por exemplo, parece a transcrição exata de pequenas cartas direcionadas a supostos ex-namorados. Cada parágrafo é dedicado a um deles: Matthew é o que ela espera que faça uma visita no futuro; Jonathan é o que mentia para ela; Terrance é o que ela mais amou e assim por diante...
As músicas de Alanis continuam com o mesmo poder de identificação com boa parte das garotas adolescentes de todo o mundo, principalmente as que gastam suas tardes maquinando os motivos pelo qual os namoros não vingaram. Algumas vezes ela faz isso com mais inteligência e emoção, enquanto em outros momentos a verborragia se torna superficial.
Musicalmente é onde Supposed... é mais interessante. Embora não tenha experimentalismos ou pesquisas sonoras características de uma série de artistas jovens do mercado atual, o disco é bem produzido, com beats consistentes, guitarras pesadas e efeitos de voz criativos. Alanis continua cantando muito bem e criando melodias que exploram a extensão de sua voz.ReproduçãoAlanis Morissette: a cantora se diz hipócrita e ciumenta e reconhece ter abusado do poderGuto Barra
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