Madredeus apresenta-se amanhã e domingo no Teatro Alfa
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quinta-feira, 16 de setembro de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 17 (AE) - Viajantes teimosos, os portugueses nunca se esquecem do aviso de que navegar é sempre preciso. O mesmo bichinho irrequieto também picou esse grupo de jovens lusos, que se encontraram num pequeno bairro lisboeta, o Madre de Deus, perto de uma igrejinha, onde gravaram o primeiro CD, em 1987. Como os antepassados, aos poucos, eles foram conquistando o continente e o além-mar. Para o Madredeus, a viagem é fundamental. "Tocamos por tantos lugares para falar dessa errância universal portuguesa, a disponibilidade de viver o mundo fora de seu mundo, dando ao público um vislumbre das razões para uma convivência pacífica entre os diversos povos", explica o poeta e compositor Pedro Ayres Magalhães, o criador do conjunto musical. Pois, por mares algumas vezes navegados, eis que eles retornam a estas praias para duas apresentações, amanhã (18), às 21 horas, e domingo (19), às 17 horas, no Teatro Alfa, em São Paulo.
O repertório dos shows reúne sucessos dos discos O Paraíso e O Porto (os dois da EMI), sempre com a voz etérea de Teresa Salgueiro, a musa das andanças experimentais do Madredeus. "Ela é a nossa inspiração maior e também o nosso limite, pois uma música é escolhida ou abandonada dependendo do desejo de ela cantar ou não", conta Magalhães. Sábia filosofia, pois é o canto dolente e doce o feitiço que completa a mágica instrumental do conjunto luso. "Teresa confessa que quer, nos concertos, fazer do público a testemunha de suas fantasias amorosas, da sua saudade apaixonada, esse amor que faz pensar em ilusões", revela o vate.
Com essas quimeras, o Madredeus foi um pioneiro na renovação da cultura portuguesa pós-Revolução dos Cravos. "Por muito tempo, via-se com maus olhos qualquer discussão sobre a história e a cultura em nosso país, como se a minha geração houvesse dado um corte vertical no passado português, rejeitando o que chamavam de monstros do antigo regime, como Camões, Pessoa e a tradição", conta. "Isso, porém, mudou e os artistas passaram a procurar, nos antigos, exemplos para o novo, a fim de atualizar a nossa produção cultural: renovar esse patrimônio para os jovens foi o ponto de partida do Madredeus", explica. A base dessa reviravolta poética foi - e não podia ser outra - a saudade.
"Enquanto uma voz que se levanta enquanto se espera, um espaço para a fantasia que parecia haver desaparecido da alma lusitana", completa. É, no entanto, um ledo engano ouvir nas canções do grupo o lamento da melancolia. "Essa é a beleza do paradoxo da saudade, para portugueses e brasileiros, pois ela não é um sentimento apenas triste, mas um convite à esperança", analisa. "Saudade é estar feliz por estar triste, já que essa emoção prova o vigor da sensação; não se trata de uma frustração
mas de uma certeza oculta de que as coisas mudarão, uma chave para evitar o futuro", observa o poeta.
Daí, também, a medida da religiosidade das músicas do Madredeus. "Que não se liga a igrejas, mas expressa a saudade da divindade, do Deus dos místicos cristãos, trazendo ainda consigo as questões existenciais perenes, como morte, vida, encarnação." Mas eles não se querem dogmáticos. "Não afirmamos nada, antes mantemos as dúvidas, renovamos os mistérios reunindo as pessoas num estado de comunhão para refletir sobre isso: não se pode viver plenamente sem discutir as perguntas sobre o indizível, o inefável", acredita. "Damos muita importância à dimensão espiritual do homem."
Para tanto, o grupo busca a concentração do público. "A nossa prática é a do espetáculo, colocando esses elementos em cena e subtraindo tudo o que possa distrair as pessoas desses temas; nosso figurino, a iluminação, a postura estática dos músicos, a ausência de percussão, tudo é feito para dar relevo às palavras e à música", fala. "O Madredeus é a plastificação da sinceridade", define Magalhães. Ainda assim, o criador prefere tratar (certamente com carinho) as músicas do grupo como "brincadeiras".
"No fundo, divertimo-nos com essa maravilhosa liberdade de compor e cantar o que queremos, essa autorização para falar de conceitos importantes como nação e cultura sem estar restritos às obras antigas, mas libertos para construir novas canções: é bom sentir que não é mais reacionário falar sobre o seu país", declara. Para todo o mundo, aliás, após o sucesso do filme de Wim Wenders, "Lisbon Story", que os fez conhecidos pelo globo. "Ele propiciou que conseguíssemos realizar um antigo projeto nosso, que era associar imagens de Lisboa à música do Madredeus."
Valor do olhar - Com rara beleza. O cineasta alemão escolheu o lugar e a música certos para discutir o valor do olhar e da temporalidade, veios escavados com vigor pela poética portuguesa e, mais recentemente, pelas músicas do grupo. "Há muitas coisa que nos preocupam hoje e gostaríamos de falar em nossos concertos das visões que temos do mundo em nossas viagens", conta. "Assim, os shows vão bem além dos elogios à bonita voz de Teresa, mas, ao mesmo tempo, nada é dito verbalmente nas canções, está no espírito do grupo, na nossa dramaturgia."
A voz feminina do Madredeus, ainda assim, é a porta-voz dessas emoções sofisticadas. "Exploramos mais as vogais nas letras, que precisam ser ditas de forma cristaliana para que todos entendam; a voz fica no centro do arranjos, como se fosse uma flauta", diz. Em meio aos sons, o silêncio é fundamental. "Na sua busca pela metáfora da saudade, o Madredeus privilegia as pausas porque é assim que aquela sensação é experimentada na vida espiritual das pessoas", observa Magalhães. C Curiosamente
essa curiosa comunhão é realmente bem-sucedida, diz o compositor, apenas no Japão (onde se apresentam com legendas) e no Brasil. Além de Portugal, é óbvio.
"Nesses lugares, partilhamos o mesmo amor pelas palavras e pela música e falo pelo grupo quando afirmo a nossa extraordinária ligação com o Brasil e a eterna alegria de aqui chegar", elogia. Para matar as nossas saudades.


