Madonna é uma cantora que passou toda a sua carreira a relançar-se. À despeito de suas limitações vocais e da falta de padrinhos no mercado musical, tornou-se por iniciativa própria e isolada - à custa de talvez alguns trabalhos de sopro -, o maior nome da indústria pop das décadas de 80 e 90. Como era de se esperar, usou o cinema - e mais tarde a maternidade - para se alavancar.
Cinema e maternidade estão juntos agora neste semi-autobiográfico ‘‘Sobrou pra Voc꒒ (‘‘The Next Best Thing’’), em que divide os papéis protagonistas - e um filho ficcional - com o inglês de fala baixa (afetada, a seu modo) Rupert Everett (‘‘O Marido Ideal’’, ‘‘Inspetor Bugiganga’’), um dos poucos, segundo consta, da categoria dos FOM (‘‘friends of Madonna’’).
Mas ficção é o que menos importa no cinema de Madonna. Quando recebe um papel, ela dá um jeito de confundi-lo com sua biografia e aproveitá-lo em sua carreira fonográfica.
É assim desde os 80, com ‘‘Procura-se Susan Desesperadamente’’, quando ainda não tinha capital para o primeiro plano.
Foi assim com o muito ruim ‘‘Corpo em Evidência’’, cujo papel protagonista de mulher luxuriante tinha a correspondência musical no álbum (e na fase) ‘‘Erotica’’.
Personificando mais recentemente Eva Perón e dizendo-se fã de Frida Khalo - a quem disse pretender cinebiografar -, chamou a atenção para as heroínas, o que também cabia como uma luva em sua ‘‘côt钒 mulher de sucesso, poderosa e intimidadora, ainda que sensível.
Assim, mais do que atuações, roteiro, fotografia ou outros dados técnicos pertinentes à crítica de cinema, o que importa em ‘‘Sobrou pra Voc꒒ são certos subprodutos.
Primeiro, a regravação do hit ‘‘American Pie’’, do obscurantista Don McLean, que os produtores deram um jeito de tornar a música preferida de um figurante (o videoclipe com Madonna, com a boa gente norte-americana e a bandeira listrada, não pára de passar na MTV).
Adepta da ioga, Madonna é uma professora de ioga no filme. O roteiro dá chance para que a atriz mostre as vantagens da técnica indiana sobre, por exemplo, a musculação, que ela um dia advogou.
(Vida real: uma mesma classe de ioga, em Los Angeles, é frequentada por Alanis Morrisette, Laura Dern e Meg Ryan, e o mestre iogue credita tal ‘‘latest craze’’ a Madonna.)
Madonna quer um filho no filme. Não conhece nenhum homem que pague a pena como marido, daí que o tem com seu melhor amigo, que, no caso, é gay.
(Vida real: Madonna anuncia que terá um segundo filho porque Lola - apelido de Lourdes Maria-, sua filha de um pai de aluguel, aos 3 anos não tem com quem brincar. A popstar não confirma que o pai, o cineasta britânico Guy Ritchie -diretor de ‘‘Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes’’- viverá sob o mesmo teto.)
Deve-se dizer que Madonna já fez filmes em que seu papel não era apenas um dado de marketing, como o sufocante ‘‘Olhos de Serpente’’, de Abel Ferrara.
Não é o caso aqui. Mas quem vai vê-la no cinema pouco se importa se a trama sugere ‘‘Kramer X Kramer’’.
Quando os créditos subirem, ‘‘American Pie’’ tocar na versão agora conhecida e os olhos marejarem, Madonna garantirá, mundialmente, após 16 ou 17 anos de seu aparecimento, mais uns bons 365 dias de fama. Filme estréia hoje em cinemas de Curitiba, Londrina e Maringá, confira a programação na página 5.

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