Um rol de veteranos dominou o MPB Londrina 2000, realizado quinta-feira, e revelou um fenômeno cada vez mais comum: a falta de espaço na mídia transformou festivais em mostras, onde muitos profissionais marcam presença pela necessidade de divulgação. As apresentações foram de qualidade, o público prestigiou e correspondeu. Mas faltou, mesmo com o padrão atingido, a sensação de novidade.
O evento colocou Londrina no circuito nacional de festivais. Havia gente de vários estados. Participaram compositores com respaldo nacional, como o vencedor Madan, e instrumentistas como Nenê, baterista que acompanhou Hermeto Pascoal e Elis Regina por vários anos. Os gêneros ficaram restritos à MPB. Estilos de características mais pop, como o rap e o rock, ficaram de fora.
Como o padrão subiu com a nacionalização, a competência acompanhou. Quem esteve na Acel não assistiu desafinações ou trastejadas. O desacerto foi pouco. A percussão da vencedora na categoria instrumental, ‘‘Espírito da Coisa’’, de Paulo Flores, foi saliente, mas a apresentação foi boa e a composição correspondeu a um resultado difícil. Paulo Morato, do jazz ‘‘Sexo e Crise’’, esqueceu a letra e reiniciou a música. A banda de apoio do festival esteve bem e não apareceu mais do que devia.
O júri foi formado pelos compositores Bernardo Pellegrini e Janete El Haouli, pelo crítico de música e programador da Universidade FM Jersey Gorgel, pelo crítico literário Marcos Losnak e pela musicista Cristina Grossi. A decisão não foi fácil: havia equilíbrio nas duas categorias.
‘‘Clara Rosa’’, de Rubinho Antunes, interpretada por uma big-band de Campinas, impressionou pelo perfeccionismo. O londrinense André Siqueira mostrou virtuosismo ao violão, em uma dinâmica claramente integrada ao percussionista André Vercelino. Lucas e Fernando Claro fizeram um duo de viola, acompanhados por percussão, e mostraram criatividade em passagens com o arco. Como a maioria das músicas apresentava um andamento incisivo, a delicada ‘‘Um Fio de Bossa’’, de Alexandre Zamith, dispersou um pouco a atenção necessária para uma composição cuidadosa.
Nas canções, o nível também foi equilibrado. Comparadas às gravações apresentadas à comissão de pré-seleção, várias músicas cresceram no palco. ‘‘Muito Prazer’’, de Rogério Botter, trouxe um solo de contrabaixo, a bateria de Nenê e uma melodia intrincada. Foi melhor ao vivo que na fita, e rendeu um dos bons momentos da noite. O vencedor Madan, com ‘‘Solidão’’ (letra de Rodrigo Garcia Lopes), mostrou garra com um violão folk.
‘‘Gentil’’, de Gilson Mendonça e Tainã, abriu a noite e empolgou. O londrinense Roberto Oliveira também fez, ao vivo, melhor que na fita, acrescentando uma banda entrosada. Sua ‘‘Mãe Natureza’’ levantou uma torcida que ansiava pela vitória de alguém da região.
Cícero Gonçalves, violeiro de Minas Gerais, mostrou sua parceria com Luiz Avelima – ‘‘Na Outra Margem do Rio’’ –, e também se avolumou no palco. O bom humor de ‘‘Sexo e Crise’’ não foi prejudicado pelo erro da letra, e o jazz sobressaiu em um repertório de MPB. Serrão, de Fortaleza, narrou a correspondência com um amigo na Alemanha em ‘‘Camarada’’, e Adolar Marin, de São Paulo, interpretou ‘‘Paisagem’’ com a banda de apoio. Ivânia Catarina, que já arrebatou vários festivais em parceria com Carlos Gomes, foi, talvez, a melhor intérprete – embora a pouca vibração tenha dado um aspecto menos empolgante à boa ‘‘Casulo na Moldura’’.
No final, Cláudio Nucci segurou com voz e violão um repertório enraizado nos anos 80. O anúncio das vencedoras veio em seguida: ‘‘Solidão’’, com Madan, levou o primeiro lugar na categoria canção, acompanhada pela mineira ‘‘Boca de Forno’’, de Wolf Borges, em segundo. ‘‘Espírito da Coisa’’, de Paulo Flores, ganhou na categoria instrumental com a Cambanda Jazz Combo, de Tatuí.

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