"Macunaíma" é atração do ciclo Cinema e Literatura
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sábado, 06 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 07 (AE) - Como parte do ciclo Cinema e Literatura, o Espaço Unibanco de Cinema exibe amanhã (08), às 20 horas, "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade. Após a sessão
haverá debate com o presidente da distribuidora RioFilme, José Carlos Avellar, e o crítico Sebastião Millaré, especialista na obra do diretor teatral Antunes Filho, que também adaptou o livro de Mário de Andrade.
"Macunaíma" é um ponto de inflexão na carreira de Joaquim Pedro. Ele vinha do curta "Couro de Gato", produzido para o longa "Cinco Vezes Favela", uma realização do Centro Popular de Cultura da UNE e, portanto, um trabalho diretamente engajado, embora poético, preocupado com a realidade social do País. Seu filme seguinte foi o longa-metragem "Garrincha, Alegria do Povo", uma das melhores realizações brasileiras sobre futebol. Joaquim procura registrar o mito Garrrincha, mas também tudo o que crescia como praga em torno dele, como a voracidade econômica dos cartolas, por exemplo.
O longa seguinte, "O Padre e a Moça", tirado de um poema de Carlos Drummond de Andrade, representa o Joaquim mais intimista, artista rigoroso, com as imagens de Paulo José (o padre) e Helena Ignez (a moça) esculpidas pela fotografia de Mário Carneiro.
O primeiro curta é de 1961. "Macunaíma" aparece em 1969. Joaquim Pedro atravessa essa década febril plugado no político e chega ao fim dela vertendo para a tela essa estranha obra, a "rapsódia" de Mário de Andrade. Para o "herói sem nenhum caráter" criado por Mário, o cineasta escalou dois atores: Grande Otelo e Paulo José. O herói nasce preto, mora na selva com os irmãos, vira branco, vai à cidade, conhece uma guerrilheira, combate um figurão italiano e sucumbe aos encantos da Iara.
Visto de certo ângulo, o filme parece nada menos que delirante. No entanto, como lembra o fotógrafo Mário Carneiro (que não participou do projeto, mas era íntimo do cineasta), o roteiro foi escrito com todo o despojamento possível, nas circunstâncias dadas. Joaquim era filho do escritor Rodrigo M.F. de Andrade. Escrevia o roteiro à noite e o pai lia o trabalho pela manhã. Quando sentia que o filho cedera à exuberância do texto, Rodrigo deixava um recado sobre a máquina: "Cuidado com o rocambole." Era a senha e queria dizer que o material estava açucarado, barroco, exagerado.
Mas não havia muito como diminuir a "temperatura" do filme para fazer dele uma obra contida. O original de Mário pedia mesmo essa leitura, alguns tons acima do naturalismo que aparece na tela. Mais: o espírito tropicalista estava no ar e o fim da década pedia aquele discreto escracho que se encontra na adaptação. Além disso, Joaquim também se encontrava naquela fase da vida em que as inibições são vencidas e os preconceitos atirados às urtigas. Já fora contido demais em seu curta e dois longas anteriores - todos filmados em preto-e-branco. Estava pronto agora para a aventura, com certa loucura controlada e pintada em cores.
O colorido de "Macunaíma" é o seu espírito como obra. Não há como fugir da premonição daquele Brasil tropical do fim dos anos 60, meio desesperado, autocomplacente com suas contradições. O desespero da esquerda, na época do AI-5, pouco tempo antes, pouco tempo depois, não pode ser subestimado. Há de tudo no filme, esse retrato rasgado de um Brasil que não conseguia se entender e já havia arquivado alguns sonhos ingênuos. Serviço - Ciclo Cinema e Literatura. Amanhã, às 20 horas; em seguida, debate. Grátis (convites devem ser reservados ). Espaço Unibanco 3. Rua Augusta, 1.475, tel. 288-6780


