MACHADO DE ASSIS EM PEQUENAS DOSES
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de agosto de 2001
Nelson Sato<BR>De Londrina 
Machado de Assis é, para muita gente, um pesadelo escolar. A obrigatoriedade de abrir seus livros no colégio, demonizou a tal ponto o mestre maior de nossa prosa que já se ouviu em sala de aula comentários sarcásticos do tipo: ''se ele é o maior escritor brasileiro, imagine o resto''.
Contrariando essa maldição, uma legião de leitores apaixonados formou-se frequentando as páginas de clássicos como ''Memórias Póstumas de Brás Cubas'', ''Quincas Borba'' e ''Dom Casmurro''. Alguns, transformaram-se em estudiosos da obra passando não só a examiná-la sob as mais diversas perspectivas críticas como a zelar pela sua difusão prazerosa entre os não-iniciados.
Esse parece ser o caso de Lucia Leite Ribeiro Prado Lopes, que está lançando ''Machado de A a X Um Dicionário de Citações'' pela editora 34. O volume traz uma compilação de 2 mil frases garimpadas de todos os escritos do Bruxo de Cosme Velho abordando diversos assuntos e agrupadas por ordem alfabética.
Segundo a autora, a publicação visa ''o público que nunca usufruiu da companhia de Machado de Assis e que pode ter um contato inicial com sua obra, tomando assim, conhecimento da abrangência de seu pensamento por inúmeros temas. A ambição maior é a de introduzí-lo no mundo de Machado e deixá-lo com vontade de conhecê-lo mais intimimamente'' escreve ela no texto de apresentação.
No dicionário, o universo do escritor espalha-se em pílulas de sabedoria, ironia, ceticismo, humor e espírito crítico visitando temas como loucura, casamento, Brasil, dinheiro, mulher, adultério, política e talento até fechar vinte e duas letras do alfabeto. ''A alma humana é tão sutil e complicada que traz confusão à vista nas suas operações exteriores'' assinala uma das linhas do verbete ''Alma (s)'' pinçada da coletânea de textos ''Relíquias da Casa Velha''.
''Desculpa a franqueza; é um direito de amigo. Até hoje não descobri outro mérito num amigo senão o de dizer coisas desagradáveis ao outro amigo, sob pretexto de que a franqueza é um dever do coração'' observa um fragmento sobre ''amizade'' extraído de ''Histórias Românticas''. A coleta de frases foi feita a partir dos três volumes da ''Obra Completa de Machado de Assis'', organizada por Afrânio Coutinho e publicada em 1977 pela Nova Aguilar.
Numa segunda etapa, Lucia Leite cotejou as pérolas do mestre com as ''Edições Críticas de obras de Machado de Assis'', texto estabelecido pela Comissão Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras em co-edição com o Instituto Nacional do Livro. O Dicionário é ilustrado com litografias de Angelo Agostini (1843-1910) originalmente publicadas na Revista Ilustrada.
Na orelha do volume, o bibliófilo José Mindilin salienta que ''Machado de A a X'' chega aos devotos do escritor como um complemento ao ''Dicionário de Machado de Assis'', publicado há mais de três décadas por Francisco Pati. Nesta temporada, chega também como aliado do premiado longa-metragem ''Memórias Póstumas'' numa cruzada para suplantar o ranço que pesa sobre a obra machadiana.
O livro já está nas prateleiras. O filme de André Klotzel, que faturou cinco estatuetas no último sábado no Festival de Gramado, tem estréia nacional na próxima sexta-feira.


