MACAQUINHOS NO SÓTÃO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de dezembro de 2001
Marcos Losnak<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
Quando uma pessoa manda outra pessoa tirar o cavalo da chuva, não significa que está chovendo e que o cavalo do pasto precisa ser levado para algum lugar coberto. O mesmo acontece quando alguém manda outro alguém plantar batatas. Não quer dizer que a pessoa deve fazer buracos na terra e enterrar mudas de batatas e depois regá-las.
Existem palavras, ou frases, que não significam literalmente o que estão dizendo. Elas são chamadas de expressões idiomáticas. Elas trazem características da língua portuguesa e da cultura brasileira. Nascem oralmente, quase que por brincadeira e, com o tempo, passam a fazer parte dos dicionários. Geralmente usamos várias dessas expressões ao dia e nem sempre damos conta.
Muitas das expressões idiomáticas utilizam a imagem de animais em sua forma. Da ''vaca que vai para o brejo'' ao ''matando cachorro a grito''. O escritor e cientista mineiro Marcelo R. L. Oliveira percebeu a grande presença de bichos nas expressões brasileiras mais usuais e teve uma bela idéia: escrever poemas infantis utilizando essas palavras.
O resultado está em ''Nós e os Bichos'', que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letrinhas com ilustrações de Cárcamo. O livro reúne 20 pequenos poemas sem ''sangue de barata'', longe das ''vacas de presépio'' e bem distante dos ''cabeças-de-bagre''. Um deles diz o seguinte: ''Se um sujeito faz / de todos gato e sapato, / se vende gato por lebre / dá sempre o pulo-do-gato, / ouça bem o meu conselho: / não confie nesse rato. / Nesse mato tem coelho.''
Os versos de ''Nós e os Bichos'', para aqueles que ainda não conhecem todas as expressões utilizadas pelo autor, pode despertar no leitor a sensação de estar num mato sem cachorro, ou mesmo dentro de um balaio de gatos. Mas basta puxar o fio da meada e tudo fica bom pra cachorro.
Exemplo: ''O cabeleireiro dos bichos / - macacos me mordam! - é o pato. / Hoje ele vai pentear macacos / que querem ser micos de circo. / Vai pagar mico, de fato, / pois macaco não tem dinheiro / e não há quem pague o pato.'' Mais um: ''- Seu doutor, estou grilado, / meu pé está formigando. / É algo grave ou estou procurando sarna pra me coçar? / - Já lhe digo o que é: / tire as minhocas da cabeça, / é só um bicho-de-pé.'' Mais outro: ''Certa vez o amigo urso / ficou amigo da onça. / Antes o seu discurso / era assim: 'Ela é uma sonsa'. / Foi difícil crer naquilo. / Choraram os dois, abraçados, / lágrimas de crocodilo.''
Dá até para inventar uma brincadeira para os poemas, algo simples para ninguém meter os pés pelas mãos. Algo como ''onde está a expressão idiomática?''. Só não vale, quem estiver perdendo, ficar uma arara, dizer cobras e lagartos, nem fechar o tempo. Nem ficar com aquele olhar de peixe morto. O resto vale: ficar feito barata tonta, pagar um mico e até mesmo ver a porca torcer o rabo.
''Nós e os Bichos'', de Marcelo R. L. Oliveira, ilustrações de Cárcamo, Editora Companhia das Letrinhas, 32 páginas, R$ 18,50.


