A partir de hoje, dez por cento do mercado exibidor brasileiro, o que equivale a cerca de 300 cinemas, vão estar por conta de ‘‘Planeta dos Macacos’’, o blockbuster que a Fox está lançando no mercado depois que as distribuidoras esgotaram a munição das férias. Só no Paraná são nove cópias em cinco cidades - Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel e Apucarana (veja a programação de cinema na página 5). Para as platéias formadas mais recentemente, a nova versão do clássico da ficção científica realizado em 1968 pode até entreter. Mas infelizmente esta travessura simiesca assinada por Tim Burton perde de vista as qualidades essenciais que fizeram do original um marco na história do gênero (leia matéria nesta página). O pior: o próprio Tim Burton não encontra o melhor de Tim Burton.
Corre o ano de 2029. Em algum ponto do universo, o capitão Leo Davidson (Mark Wahlberg) e sua tripulação espacial procuram misteriosas tempestades magnéticas. Um chimpanzé geneticamente alterado, e portanto mais ‘‘esperto’’, é enviado para recolher dados no interior de um desses fenômenos. O macaco perde contato, o capitão embarca em nave-resgate mas entra numa espécie de túnel do tempo e termina caindo em estranho planeta. Logo capturado por um grupo de macacos falantes, Leo é vendido para um mercador de escravos que por sua vez o revende à atraente chimpanzé Ari (Helena Bonham Carter. A atenciosa Ari - a Fox andou enxugando páginas do roteiro em que Leo e Ari esquentavam um tanto a relação - ajuda o astronauta e outros humanos a escapar para as montanhas onde está a nave. Mas são perseguidos pelo terrível general-gorila Thade (Tim Roth, em irritante interpretação over).
Ninguém ignora que o diretor é excepcionalmente dotado do sentido da melhor imagem que a câmera pode captar. Esta é a principal razão de sua respeitada posição em Hollywood, que lhe entrega projetos multimilionários apesar de sua inclinação pelo ‘‘dark’’ e suas tendências mais herméticas. O olhar é sempre a primeira coisa na cabeça de Burton, o diretor é invariavelmente bom em tornar críveis os estranhos mundos que ele e seu habitual desenhista de produção, Rick Heinrichs, sonham juntos. Neste caso, o planeta onde macacos governam e humanos são considerados escravos sem alma. Mas comprometido com um roteiro sub-dramatizado e congestionado de tramas paralelas, Burton falha em dotar o filme de vida interior mais inteligente e acaba sucumbindo vitimado por uma estrutura narrativa frouxa e diálogos pouco imaginativos. Em nenhum momento são encontrados os argumentos éticos sobre igualdade entre espécies, militarismo fascista ou a fina ironia sobre o destino da raça humana, matéria-prima de que é feito o modelo de 68, a inspirada fantasia social dirigida por Franklin J. Schaffner. E também estão ausentes os temas predominantes na filmografia essencial de Burton, a rejeição, o isolamento e a procura do próprio lugar das pessoas no universo - aquilo que fez o estranho encantamento poético em ‘‘Edward Mãos de Tesoura’’ e ‘‘Ed Wood’’.

mockup