MAC reabre com obras de artistas britânicos
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de maio de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 31 (AE) - O Museu de Arte Contemporânea do Ibirapuera (MAC), de São Paulo, reabre amanhã com duas exposições que trazem ao Brasil obras de artistas britânicos e uma terceira, "Receptáculos", com peças das brasileiras Shirley Paes Leme, Sandra Tucci e Beth Moysés. A primeira, "Múltipla Escolha", organizada pelo British Council com obras de sua coleção, reúne gravuras de 16 artistas, todos nascidos nos anos 60, entre eles Damien Hirst, o mais polêmico nome surgido na Inglaterra nos anos 90. A segunda mostra, "Deslocamento", organizada pelo artista Peter Grego, utiliza diversos suportes (fotografia, pintura, vídeo) para traduzir em imagens um fenômeno típico do século, a sensação de "displacement", de estar fora do centro e ser arrastado por ventos periféricos, como as vítimas das guerras étnicas condenadas ao exílio.
Displaced define, assim, um sentimento - mais do que uma atitude. O artista "deslocado" é aquele que não olha mais o mundo de uma janela central, mas foi arrastado pelo furacão pós-moderno, pelas mudanças geopolíticas, pela concretização do pesadelo científico, pela fome, a violência e a deterioração da urbe. Entre os 12 nomes integrantes da mostra estão artistas como Terence Clarke, Steve Payne e Nigel Prince, o último retrabalhando imagens do filme "Reconstructions", de Ronald Sheriff.
De certo modo, cada uma dessas mostras é um complemento e ao mesmo tempo um contraponto da outra. "Múltiplas Escolhas" é uma exposição de gravuras que reúne os maiores nomes da arte inglesa revelados nos anos 80, quando o "milagre" econômico fez emergir novos angry men dispostos a perturbar esse estado de "prosperidade". "Deslocamento" é o estágio posterior, o reconhecimento da miséria espiritual numa sociedade materialista e em crise.
Trágicos - Na primeira, Damien Hirst, o homem que congelou animais e levou seus restos para os museus, mostra seu lado mais comportado, o de bom aluno de geologia, numa serigrafia rosa sobre amostras geológicas. Não é um trabalho destinado a provocar o choque de sua obra mais conhecida, de 1991, que mostra um tubarão preservado num tanque de formol, desafiando os mortais à sua frente. Hirst trata o conceito de transcendência com os restos desses animais, provocando uma reflexão sobre a morte.
Hirst é um trágico numa sociedade que só entende o melodrama. Já Angus Fairhurst sabe que essa sociedade não tem a grandeza dos gregos e perdeu o sentido da tragédia. Usa o humor para falar de arte, mostrando uma série de quatro serigrafias que formam uma espécie de portfólio. Nele, o artista aparece em preto-e-branco segurando chapas de cores primárias. Gary Hume leva ao paroxismo a percepção primária dessa mesma sociedade, reduzindo seus ícones a linhas básicas, frequentemente num registro camp.
A mostra "Deslocamento" penetra nesse território pantanoso para entender essa contradição em movimento, a de uma sociedade tecnológica altamente desenvolvida, mas com o cérebro atrofiado, infantilóide. O curador Peter Grego brinca com a tradição construtiva ao compor uma estrutura de retângulos cuja ordem cromática é a tradução visual da perversa lógica que dá origem às guerras étnicas e ao racismo.
Tema atual - Para o crítico e diretor do Museu de Arte Contemporânea, Teixeira Coelho, o tema que reúne esse grupo de artistas ingleses na mostra "Deslocamento" não poderia ser mais atual. "É como se o conceito de deslocamento fizesse parte da infra-estrutura cultural do momento, não apenas se oferecendo como alternativa, mas determinando atitudes e comportamento", escreve na apresentação da exposição. Teixeira Coelho pretende com essas duas mostras de artistas ingleses sedimentar a parceria com o British Council, levando também para a Inglaterra artistas brasileiros.
Em setembro, o MAC recebe a mostra de Yoko Ono, artista conceitual que fazia parte do grupo Fluxus quando conheceu John Lennon. Yoko presta uma homenagem ao Brasil, fazendo emergir uma árvore em meio a caixões de defunto. Essa ressurreição também pode funcionar como alegoria do novo MAC, que volta a ocupar o último andar do pavilhão da Bienal depois do desabamento do teto sobre a mostra internacional em outubro. O telhado foi consertado, mas os buracos que fizeram na laje para deixar passar a água ainda estão lá. A direção do museu deve rezar para não chover nos próximos meses.
"Além disso, a ocupação do prédio ainda não está totalmente resolvida e não poderemos ocupar o pavilhão Manoel da Nóbrega, reservado para a bienal dos 500 anos", lembra Teixeira Coelho que, apesar disso, vê renascer seu museu com força total. A mostra de seu acervo no prédio da Fiesp tem recebido nada menos do que 2 mil visitantes por dia nos fins de semana.
Serviço - "Múltipla Escolha", "Deslocamento" e "Receptáculos". De terça a domingo, das 12 às 18 horas. Grátis. MAC/Ibirapuera. Pavilhão Ciccillo Matarazzo, 3º Piso. Parque do Ibirapuera, portão 3, em São Paulo. Até 25/7. Apoio: Metropolitan Transportes. Abertura às 19 horas.


