São Paulo, 15 (AE) - "Maborosi, a Luz da Ilusão" - um estranho título para este que é o primeiro longa-metragem de ficção do japonês Hirokazu Kore-Eda, em cartaz a partir de amanhã (16) na Sala Cinemateca. Lá pelas tantas, o espectador fica sabendo que o termo maborosi, intraduzível, refere-se a uma luz fugidia, que os pescadores às vezes vêem, ou julgam ver, quando estão em alto-mar. A ilusão pode levá-los ao desastre, mas é muito difícil resistir à impressão de realidade causada pelo maborosi.
Tudo isso é um tanto metafórico - e serve para abrir os caminhos de filmagem ao diretor. A história que ele tem a contar é simples e sucinta, como costuma ser a vida de uma pessoa quando olhada de fora. Yumiko (Makiko Esumi) tem 12 anos quando sua avó resolve deixar a casa e voltar para a sua cidade natal, onde quer morrer. É sua primeira experiência com a morte. Mais tarde, ela se casa com Ikuo (Tadanobu Asano) e tem um filho com ele. Vivem muito bem, até que um dia o marido se suicida, sem motivo aparente. Yumiko desespera-se, depois se conforma, casa-se de novo. Entretanto, continua obcecada em compreender o motivo da morte do primeiro marido. É isso e nada mais.
No entanto, há um mundo no interior dessa pequena história. Kore-Eda, que acaba de ganhar o Festival de Cinema Independente de Buenos Aires com seu segundo longa, "Depois da Vida", filma como se quisesse tocar a essência dos mistérios que o inquietam. Põe a câmera na altura do olho humano - o chamado "nível do tatami", de Ozu -, enquadra cada plano como se compusesse uma tela clássica, distribuindo cores e volumes, usa técnica fotográfica discreta, mas nunca menos que magnífica.
Há um pouco de música, mas a nota dominante é o silêncio. Um exercício rigoroso de economia de meios, na melhor tradição do cinema oriental, esse estilo de buscar o solene sem ser pomposo. Por meio dessa sucessão de imagens, dessa história singela, correm algumas das inquietações fundamentais da existência. Kore-Eda pergunta-se pelo sentido possível da vida, joga com as noções de acaso e necessidade e conclui por um sentido de compaixão humana que, se não livra os personagens da dor, pelo menos os salva do desespero. Não é pouco para esse filme de poucas palavras, muitas idéias e intensa beleza.

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