São Paulo, 20 (AE) - A era dos grandes sáurios da regência parece ter chegado ao fim, mas ainda há um tiranossauro fabuloso de batuta afiada bem vivo em meio à floresta da música erudita: Lorin Maazel. Essa longevidade explica-se pelo reverso da precocidade. O maestro regeu seu primeiro concerto aos 5 aninhos e aos 9, convidado por Leopold Stokowski, dirigiu a Filarmônica de Los Angeles. Com 11, Toscanini levou-o para enfrentar as suas crias arrogantes da NBC que, irritados, encheram o pódio de doces para esperar o menino. Mas, em poucos minutos de ensaio, os músicos perceberam à frente de que prodígio estavam.
Para nosso deleite, Maazel está de volta ao Brasil em ótima companhia, a Orquestra Filarmônica de Viena, em sua quarta turnê ao País para dois concertos na série do Cultura Artística, nos dias 6 e 7 de outubro. No programa, obras de Brahms (Quarta Sinfonia), Ravel, Stravinski, Mahler (a poderosa Quinta Sinfonia) e Richard Strauss. Os filarmônicos estiveram aqui pela primeira vez em 1922, com Felix von Weingartner e voltaram com B”hm (quando, horror, foram assaltados em bando) e, depois com Maazel, que torna a dirigi-los, numa parceria que já dura 38 anos e inclui os concertos de fim de ano em Viena, um bombom musical favorito dos austríacos.
"Será ótimo voltar ao Brasil, um país que amo de coração", disse o maestro. E fique certo de que não é um daqueles surrados clichês de visitante. "Em 1956, após uma turnê pela América do Sul, com tempo e sem compromissos, decidi ficar no País por seis meses, visitando o Rio, Salvador, aprendendo a sua língua, que acho maravilhosa, conhecendo pessoas fantásticas, enfim, uma experiência inesquecível", conta. "Foi quando aprendi a gostar da música de Villa-Lobos, a quem admiro muito e cuja contribuição à história da música reputo como importante", elogia.
O que não é pouco vindo de um músico exigente com Maazel
dono de uma vasta cultura (além de música, estudou matemática, filosofia e línguas) e crítico ferrenho da mediocridade que, diz
ataca boa parte de seus colegas de profissão. "É preciso fazer algo para se reabilitar essa arte tão delicada e complexa, formar uma escola que nos ajude a criar melhores regentes no futuro, já que perdemos a antiga escola dos pequenos teatros e orquestras, que permitiram a formação de nomes como Toscanini, Furtwaengler, Bruno Walter, entre outros", avisa. Figuras bem diferentes dos atuais "açougueiros", que é como Maazel se refere a alguns regentes que, diz, no pódio, dançando e em transe, sabem cortar bem costelas e coxão mole, mas pouco fazem música.
"O público precisa perceber que não existe essa coisa de estilo de reger - sempre que tentam definir o meu, causam-me risos - e que o fundamental não são os movimentos que um maestro executa em frente da orquestra, seja pulando, seja estático como um estátua", observa. "O importante é, a despeito de que técnica se lançe mão, conseguir trazer de volta à vida a essência da música a partir de notas impressas num papel", nota. "Se o cabelo é longo, curto, se o regente usa uma flor verde no traseiro, isso é bobagem, são só aspectos superficiais, pois o público deve, ao fim da noite, deixar o teatro com a sensação de ter ouvido música de qualidade tocada com qualidade e ponto", acredita. "Mas as pessoas não são idiotas e acabam entendendo o marketing desnecessário, o show excessivo e sem conteúdo, o movimento vazio que interessa mais aos coreógrafos do que aos músicos." A imagem soa bem familiar, não é?

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