M A I A K Ó V S K I
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
O sangue possui uma grande semelhança química com a água do mar. Seria uma das evidências que o homem possui sua origem primordial no seio dos oceanos. O sangue que corre em nossas veias, em termos moleculares, seria uma pedaço dos mares com ondas e marés.
Esse sangue de origem marítima inundou o quarto do poeta russo Vladimir Maiakóvski em 14 de abril de 1930, há 70 anos atrás. Litros de sangue. Com 36 anos de idade, suicidou-se com um tiro no peito. Havia colocado uma única bala no tambor da arma. Para um único coração bastava uma única bala.
Repetia o mesmo gesto que o amigo e também poeta Sierguéi Iessiênin (1895-1925) realizara cinco anos antes. Iessiênin foi mais passional. Cortou os pulsos e escreveu um poema com o próprio sangue. Em seguida, enforcou-se. No último verso de sua última obra deixa um breve recado: Se morrer, nesta vida, não é novo, tampouco há novidade em estar vivo. Em seu bilhete suicida, Maiakóvski foi mais incisivo: O mar se vai / o mar de sono se esvai / como se diz: / o caso está enterrado / a canoa do amor se quebrou no cotidiano / estamos quites / inútil o apanhado / da mútua dor mútua quota de dano.
Vladimir Maiakóvski, expoente do futurismo russo, foi um dos inúmeros artistas que trabalharam com paixão pela Revolução Russa, pelo sonho marxista de um mundo igualitário e justo. Também foi um dos inúmeros que se mataram corroídos pelas desilusões políticas, pelos descaminhos da revolução.
Considerado o maior poeta russo do século 20, Maiakóvski deixou uma extensa produção. Suas obras completas publicadas na Rússia compreendem 13 volumes com poemas, prosa, peças teatrais, roteiros de cinema, cartazes, artigos, ensaios, conferências, etc. Ele foi o grande responsável pela introdução da linguagem coloquial na literatura soviética e pioneiro na utilização dos veículos de comunicação de massa como canal de expressão artística.
Apesar de sua dedicação à causa social, não abdicou de sua rebelde liberdade individual. Diante do argumento de que o proletariado não conseguia entender sua poesia, e por isso deveria escrever de maneira mais fácil, provocou confusão ao afirmar que os operários é que deviam se instruir para entender seus versos e não ele banalizar sua arte. Maiakóvski não desejava apenas uma revolução social, mas também uma revolução estética nas artes. Em suas palavras, não poderia existir arte revolucionária sem forma revolucionária.
Maiakóvski nasceu em 7 de julho de 1893 (19 de julho segundo o calendário Gregoriano utilizado na Rússia). Nas primeiras linhas de sua autobiografia escrita em 1928, dois anos antes de sua morte, começa com as seguintes palavras: Sou poeta. É justamente por isto que sou interessante. E sobre isso escrevo. Sobre o restante: apenas se for defendido com palavra. Catalisador de idéias, insistiu em não oferecer nenhuma regra para uma pessoa se tornar poeta: Em geral tais regras não existem - damos o nome de poeta justamente à pessoa que cria essas regras poéticas.
Polêmica foi sua relação amorosa com a Lília Brik, esposa do crítico literário Óssip Brik. Na juventude Maiakóvski foi morar num dos quartos de casal Brik. Em pouco tempo tornou-se amante de Lília. Essa relação a três, todos conscientes da situação, perdurou durante anos. A moça foi execrada pelos companheiros de partido mas manteve-se fiel a seus avançados ideais de liberdade numa sociedade moralista. Na figura de grande amor do poeta, Lília se tornou uma lenda viva como preservadora da obra de Vladimir até seu próprio suicídio, por ingestão de sedativos, em agosto de 1978 aos 86 anos de idade.
Embora a obra de Maikóvski seja pouco conhecida do Brasil, talvez pelos poucos livros publicados, dois fragmentos de seus poemas são bem populares. Melhor morrer de vodca que de tédio!, lema de jovens alucinados e existencialistas, faz parte de um poema dedicado a Sierguéi Iessiênin escrito em 1926 em homenagem ao amigo suicida. Gente é para brilhar!, incorporado numa canção de Caetano Veloso e palavra de ordem da alegre esquerda brasileira, é uma frase do poema intitulado A Extraordinária Aventura Vivida por Vladimir Maiskóvski no Verão na Datcha escrito em 1920.
Assim como a beleza é uma pedra sepultada sob a pele, o sangue é um descendente do mar. Assim como o círculo possui um raio, a dor é um tecido sem diâmetro. Assim como é difícil decantar a existência, a lágrima de um cão não possui cor durante a madrugada. Assim como a poesia é inútil, o sol nasce todos os dias sem receber nenhuma ordem. Assim como a solidão é uma fruta sem estação, o mar é sangue que deixou de correr em nossas veias. E tudo o que fica, o que sobra, seria apenas o brilho do sal? Na subjetividade de Maiakóvski, quando o mar se vai, tudo o que fica são os restos dos barcos. E sal, muito sal. Em suas palavras, nesta vida morrer não é difícil - o difícil é a vida e seu ofício.Há 70 anos morria o poeta russo que trazia no peito duas revoluções, uma social e outra estética
ReproduçãoVladimir Maiakóvski: Nesta vida morrer não é difícil - difícil é a vida e seu ofícioReproduçãoÀ direita desenho com que Vladimir Maiakóvski assinou uma carta a Lília. Na sequência, ilustrações para uma cartilha revolucionária





