Lydia Hortélio: uma brincante de 82 anos
Com um delicioso sotaque nordestino, a etnomusicóloga e educadora Lydia Hortélio, de 82 anos, proferiu na última quarta-feira, a palestra "Cultura da Infância", na Biblioteca Pública de Londrina, como parte da programação do 4º Encontro de Contadores de Histórias de Londrina (Ecoh). Ela também realizou durante dois dias a oficina "Música Tradicional do Brasil", voltada para educadores.
Considerada uma das principais referências brasileiras na área de etnomusicologia, Lygia começou suas pesquisas musicais ainda jovem, quando morou na Alemanha para aprofundar os estudos de piano. Ao se deparar com a riqueza da musicalidade da cultura popular brasileira, acabou abandonando os estudos de música clássica e "mergulhou de corpo e alma", "numa sangria no que tem de melhor", nas suas raízes musicais, atrelando a isso um trabalho de pesquisa aprofundado sobre a arte do brincar, baseado também na cultura popular.
Em suas andanças está sempre acompanhada de uma máquina fotográfica e há muitos anos tem registrado flagrantes das mais diversas brincadeiras (que prefere chamar de "brinquedos", de modo geral, como fenômeno lúdico) de nossas crianças. "Impressiona o exercício da vontade, o desejo de ir além das crianças por meio dos brinquedos, sendo que considero a música um brinquedo também. É algo espontâneo, ninguém diz a elas exatamente como fazerem, mas por todo o Brasil podemos ver a reinvenção das mais diversas brincadeiras, e muitas delas milenares", ressalta a educadora.
Infelizmente, ela admite que nos últimos anos tem se tornado cada vez mais difícil os registros mais genuínos dos "brinquedos" infantis: "Mesmo nas localidades mais simples, vemos muitas crianças fechadas em casa, apenas na televisão e no computador. Às vezes, tenho que ir até a periferia para conseguir fazer a minha pesquisa", observa. Amarelinha, corrida de argolinha, peão, brincadeiras na água e tipos de pipas são alguns dos brinquedos/brincadeiras pesquisados por ela.
Na palestra, Lydia Hortélio apresentou uma parte do seu acervo de imagens, incluindo reproduções de pinturas e desenhos, que registram o brincar nas mais diferentes culturas, em uma extensa linha do tempo. "É interessante observar como o brincar é uma necessidade inerente do ser humano. É triste que tenhamos nos afastado da 'roda', muitos problemas poderiam ser evitados", afirma, categoricamente a educadora, que também partilhou uma série de histórias interessantes sobre o seu trabalho e experiência de vida.
Criada no interior da Bahia, em Serrinha, tendo o privilégio de ter à disposição um quintal cheio de árvores de mangas e outras frutas, Lydia fala de um tempo de liberdade para criar, onde brincar de Cinco Pedrinhas ou Cinco Marias, mexia com a imaginação das crianças e trazia à tona uma série de sentimentos e as mais diferentes nuances da expressão humana. "É preciso investir nesse resgate. Cuidar das nossas crianças, proporcionar a elas o contato urgente com a natureza. Para mim, educação e cultura deveria ser um ministério só", alerta. (A.P.N.)





