Nelson Sato
De Londrina
Em ‘‘Itinerário Político do Romance Pós-64: A Festa’’, o crítico literário Renato Franco analisa como os romances produzidos durante a ditadura reagiram tanto à censura quanto ao processo de modernização do País
O Brasil, diz o clichê, é um país sem memória. Uma antologia de frases lapidares poderia ser reunida em torno do tema, como aquela do jornalista Ivan Lessa para quem ‘‘de quinze em quinze anos os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos quinze anos’’.
A anistia, implantada no período da transição democrática, parece ter reforçado a amnésia social ao institucionalizar o silêncio sobre os anos de chumbo. O livro Itinerário Político do Romance Pós-64: A Festa, do crítico literário Renato Franco, é um ataque a esse obscurantismo.
Lançado pela editora Unesp, é um ambicioso estudo sobre a prosa de ficção produzida no País sob a sombra da ditadura. Com uma clareza e leveza notáveis, raras nos círculos acadêmicos, o autor analisa como os romances da época reagiram à censura e à modernização conservadora imposta pelos militares.
A pesquisa exigiu a leitura de 50 títulos publicados entre 1964 e 1981. Diante do material, procurou identificar as afinidades para agrupar as obras em constelações literárias. Do painel emergem narrativas de primeira linha como Zero de Ignácio de Loyola Brandão, Quatro-Olhos de Renato Pompeu, Armadilha para Lamartine de Carlos & Carlos Sussekind, Confissões de Ralfo de Sérgio Sant’Anna; e principalmente A Festa de Ivan Angelo - todas apontadas como representantes de um novo tipo de romance, algumas delas partilhando elementos do que o autor chama de ‘‘ficção radical’’.
Paulo Francis com Cabeça de Papel e Antonio Callado com Reflexos de Baile também são elencados, com ressalvas, nessa lista. Publicadas no início da abertura política, tais obras questionam a composição tradicional do romance caracterizando-se pela linguagem fragmentária, múltiplos pontos de vista narrativos e uso de técnicas de montagem. Renato Franco nota que alguns títulos, caso de A Festa, chegam a ‘‘transgredir os limites estabelecidos entre o conto, o romance, a novela e mesmo o ensaio’’.
Itinerário Político do Romance pós-64: A Festa oferece novas luzes sobre uma época sombria, detectando padrões narrativos não examinados por outros ensaístas. Vê, por exemplo, duas tendências orientando o panorama literário do País logo após o golpe: o ‘‘romance de impulso político’’, que segundo ele estaria afinado com a atmosfera de ebulição política experimentada pela produção cultural naquela conjuntura; e o ‘‘romance da desilusão urbana’’, que trataria de crises existenciais dos personagens.
Esse período, lembra ele, foi desfavorável para a prosa de ficção. O ambiente de ‘‘politização da cultura’’ que se seguiu, privilegiou as expressões mais adequadas ao consumo coletivo - caso do cinema, teatro e especialmente a música popular - coincidindo com o estabelecimento daquilo que chamamos hoje de indústria cultural.
Assim, a literatura vivenciou um repentino desprestígio social diante do poder e alcance da imagem difundida via satélite.
Mesmo assim, a radicalização política não poupou os escritores, que também se renderam aos apelos da militância. Vários romances da época retratam o momento, tematizando o engajamento de intelectuais à causa revolucionária. Quarup de Antonio Callado e Pessach: a Travessia de Carlos Heitor Cony, ambos lançados em 1967, enquadram-se nessa primeira tendência.
Já entre os romances que refletem a desilusão urbana, o autor se detém em obras como Bebel que a Cidade Comeu de Ignácio de Loyola Brandão, Engenharia do Casamento de Esdras do Nascimento e Os Novos de Luís Vilela, nas quais predomina a narração dos impasses e transformações experimentadas pela classe média diante da rápida modernização que abalava os hábitos e costumes das grandes cidades. Muitas obras, salienta o autor, ‘‘narraram a falência do casamento e o fracasso do indivíduo’’.
Após a decretação do AI-5, em 1968, toda a vida cultural sofreu um baque com o recrudescimento da repressão. O percurso do romance continou sendo marcado pela questão do engajamento. A diferença é que se nas primeiras narrativas os personagens sucumbiam ao idealismo romântico trocando as letras e a teoria pela ação, numa fase posterior passaram a postular o caminho de volta defendendo a literatura como atividade de resistência e crítica.
Nesse período, as obras refletiram a impotência política da vida real. Essa ‘‘literatura da derrota’’, como o autor a define, debateu-se tanto com a questão do sentido do ato de escrever como a do valor e papel do escritor. ‘‘Ela narrou a boêmia, a paralisia do escritor, o fim das esperanças de se resistir à ditadura através da guerrilha, mas não conseguiu criar obras originais ou de influências férteis’’ - salienta Franco.
É a partir da metade da década de 70, quando a prosa de ficção experimenta um boom no mercado, que o autor percebe o surgimento da melhor safra de títulos do período investigado. Os escritores, em crise diante da concorrência de outros meios expressivos, passam a incorporar sistematicamente a seu corpo de signos recursos oriundos de outras mídias como cartazes, manchetes de jornais, notícias, técnicas do cinema, rádio e televisão.
O País respira os primeiros momentos da abertura política. A produção literária, na nova conjuntura, tende a buscar no jornal tanto a matéria histórica dos romances - particularmente nas páginas policiais - como o próprio procedimento narrativo. Despontam aí os romances-reportagem de José Louzeiro, seguidos de dois novos gêneros: o ‘‘romance de memórias políticas’’ com depoimentos de antigos militantes (com destaque para O Que É Isso, Companheiro, de Fernando Gabeira) e o ‘‘romance-documental’’ empenhado em denunciar as truculências e brutalidades da repressão política.
O ensaio se encerra com várias páginas dedicadas ao romance A Festa, de Ivan Angelo, considerado pelo autor como a obra paradigmática dos anos 70. Depois do ponto final, a vontade é continuar na poltrona com as sobrancelhas baixas devorando as narrativas destacadas ao longo das páginas.
A década de 70, quem diria, também desovou meia dúzia de clássicos.

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