LUZES SOBRE O MITO ACM
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de março de 2001
Jota De Londrina Especial para a Folha 2 
Biografia de Antonio Carlos Magalhães, escrita pelo jornalista João Carlos Teixeira Gomes, desafia o poder de intimidação do senador baiano e transforma-se em fenômeno de vendas
Na baixaria em que se transformou a disputa pelo comando do Congresso Nacional, o senador Antonio Carlos Magalhães veio com uma novidade dentre a costumeira carga de impropérios que descarrega quando tem seus interesses contrariados. Desta vez, em meio às ofensas pessoais, ele elegeu também um livro como alvo de seu destempero. Memórias das Trevas (Geração Editorial, 766 páginas, R$ 40,00), do jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes, foi tachado pelo senador como uma obra encomendada por seus adversários.
A irritação de ACM só fez aumentar a curiosidade em torno do livro. Memórias das Trevas, que já vinha tendo grande aceitação entre os leitores, estourou nas vendas e hoje está no topo das listas de mais vendidos. E ironicamente, foi o poder de intimidação de ACM que acabou por possibilitar a coincidência ótima para o livro e péssima para ele entre o lançamento e a eleição no Congresso Nacional.
O livro já está escrito há dois anos e foi anunciado em setembro de 1999 em uma entrevista do autor à revista Caros Amigos. Antes da Geração Editorial, do jornalista Luiz Fernando Emediato, decidir publicar a obra, Teixeira Gomes recebeu a negativa de quase 20 das grandes editoras do País, todas com medo de ACM. Trata-se de uma novidade, pois sabia-se até agora apenas das interferências do senador em redações de telejornais, diários e de algumas revistas, lugares onde conta com editores e colunistas extremamente servis.
Sequer se suspeitava da influência do senador pefelista na colocação de novos títulos nas livrarias brasileiras. Emediato não se abalou com as supostas pressões mas, como previdência, a edição e impressão do livro foram feitas no maior segredo. Nenhum jornalista teve acesso às primeiras provas como é praxe entre editoras e imprensa.
Entretanto, depois da chegada do livro às livrarias, interesses estranhos pareceram prevalecer nas editorias de parte substancial da imprensa. Apenas as revistas CartaCapital e Istoé deram destaque ao livro. Em alguns jornais, somente as reações do ex-presidente do Senado foram veiculadas. As suspeitas de um conluio para abafar o livro se fortalecem depois da alta vendagem de Memórias das Trevas. Se já era difícil justificativar a falta de interesse em analisar um livro que faz um retrato devastador de uma das figuras mais poderosas do Brasil, como se arranjar desculpas para ignorar um livro político que tornou-se um fenômeno de vendas?
Na Bahia, terra do autor, a barreira foi ainda mais sólida. Opinião Brasil, programa da TV Cultura em que Teixeira Gomes era entrevistado, teve sua retransmissão censurada na TVE baiana. E o Observatório da Imprensa, que também entrevistaria o autor de Memórias das Trevas foi suspenso pelo editor, Alberto Dines, em função de censura da mesma TVE baiana. E é óbvio que a Rede Globo controlada na Bahia pela família Magalhães não concedeu sequer um segundo para o livro.
Ainda na Bahia, o jornal diário de propriedade dos Magalhães completa o serviço atacando até o proprietário da Geração Editorial, o jornalista Luiz Fernando Emediato. Nas matérias, sempre contrárias ao livro, Emediato é chamado de corrupto, pseudo-editor e outras barbaridades do mesmo estilo, aliás, muito familiar. Com seus ataques, ACM tem sido o maior propagandista do livro, disse Emediato em entrevista a Folha. O que demonstra que afinal ele não é tão hábil assim como se fala. Segundo Emediato, a cada quinzena é preciso reimprimir uma nova edição do livro que, até agora, vendeu 40 mil exemplares.
Mas tamanha precaução de ACM faz sentido. O senador não precisa sequer dar uma passada de olho pelas páginas de Memórias das Trevas para compreender que o conteúdo traz perigo para o mito político que construiu com tanta habilidade. Teixeira Gomes seria o último jornalista que ele desejaria ter escrevendo sobre sua carreira política. Respeitado intelectual, biógrafo de Glauber Rocha e autor de um considerado estudo literário sobre o poeta baiano Gregório de Matos, o jornalista conhece a vida de ACM como ninguém. Até nos detalhes psicológicos mais ocultos.
As carreiras do político e do jornalista correram paralelas na Bahia. Nomeado prefeito biônico de Salvador, ACM tinha no Jornal da Bahia um empecilho para a elaboração de seu projeto de poder, principalmente por causa da presença de um redator-chefe determinado a manter a independência do veículo: João Carlos Teixeira Gomes. Primeiro como prefeito biônico nomeado pela Ditadura Militar em 1967 e depois como governador também biônico, no período de 71 a 75, ACM fez de tudo para dobrar o diário dirigido por Teixeira Gomes. Parte de Memórias das Trevas é a narrativa do trabalho cotidiano da redação no enfrentamento dessa luta desigual. Sempre tendo o poder dos militares como suporte, ACM usou de todos os artifícios e pressões para submeter o Jornal da Bahia. Houve até a tentativa de compra do controle acionário da empresa por meio de um testa-de-ferro, manobra que acabou sendo desmascarada. Um relatório da direção do jornal, endereçado aos acionistas em 1º de março de 1972 sendo ACM, portanto, governador biônico da Bahia , faz um bom retrospecto das pressões: Coação fiscal, coação creditícia, coação financeira, coação sentimental, coação de todo tipo, enfim, que um governo possa fazer para esmagar uma empresa tem sido empregado contra o Jornal da Bahia e seus anunciantes, e até mesmo contra os seus leitores, proibidos de ler o jornal em algumas repartições do Estado.
Junto com as pressões governamentais havia o jogo sujo de pichar a casa de adversários com palavras de baixo calão, danificar e furar os pneus do carro de desafetos o que aconteceu com Teixeira Gomes e, mais grave, o uso do terrorismo como arma de intimidação. Um diretor do jornal sofreu um atentado a bomba em plena Salvador.
Até a Lei de Segurança Nacional (LSN) o governador chegou a sacar para destruir o autor de Memórias das Trevas. A LSN era uma lei de exceção criada pelos militares para o controle da imprensa. A intenção era mandar Teixeira Gomes para a cadeia como subversivo o que, em pleno período Médici, era péssimo para a saúde de um jornalista. A arbitrariedade de ACM era tamanha que, neste caso, nem os militares lhe deram razão. O Tribunal Militar derrubou sua pretensão por quatro votos a um, quatro votos de militares e o voto favorável do auditor-geral, um civil ligado ao governador. Não é à toa que o autor escreve que Antonio Carlos não era apenas o governador imposto pela ditadura à Bahia. Ele era a própria ditadura.
O uso do temor que os militares causavam na população foi importante na construção de sólidas carreiras políticas e vastas fortunas no Brasil. Sem a ditadura militar esta é uma das conclusões do livro de Teixeira Gomes ACM não teria concentrado toda a força que acabou tendo na Bahia e depois espalhado seu domínio para o restante do país. Com este suporte fantástico de violência e medo, pôde criar as bases daquilo que na Bahia é chamado de carlismo, uma estrutura de poder centralizada em sua pessoa.
Junte-se a este poder de intimidação um completo domínio sobre os meios de comunicação no estado, verdadeira obsessão de ACM e a razão da perseguição feita ao Jornal da Bahia. A construção do império de comunicações foi bastante acelerada com a nomeação para ministro das Comunicações do governo Sarney (1985-1991), onde havia farta distribuição de estações de rádio e televisão. O cargo também foi útil para estreitar laços com o empresário Roberto Marinho, importante parceiro de poder. Entre vários bons negócios relatados no livro, Teixeira Gomes lembra da contribuição que ACM deu, como ministro, para a compra do controle acionário da NEC empresa da área de telecomunicações pelo dono da Rede Globo. As pressões sobre o empresário Mario Garnero fizeram com que ele se desfizesse das ações favorecendo Marinho. Consumada a venda, a Rede Globo passou a retransmissão de sua programação para a TV Bahia, cancelando o contrato que tinha há 18 anos com a TV Aratu.
É a construção desse imenso poder, ampliado pela oportuna aliança com os tucanos, que Teixeira Gomes disseca em um texto apaixonado, porém elegante, sempre sustentado em muitos documentos que fortalecem seus pontos de vistas. Não faltam nem mesmo histórias sobre a fundação do PSDB testemunhada pelo autor e o posterior abandono dos propósitos renovadores do partido. Memórias das Trevas pode ser definido como um livro três-em-um. O mito ACM é analisado principalmente na primeira parte do livro, com a narrativa da gloriosa luta contra a tentativa de destruição do Jornal da Bahia pelo nascente poder político carlista. As viagens do jornalista são o assunto da segunda parte, destacando-se a passagem sobre o Chile, governado por Eduardo Frei, em 1968, quando o autor mostra o clima de agitação política que levaria à eleição de Salvador Allende, derrubado em 1973 por um golpe militar. O livro conclui com um respeitável ensaio sobre o neoliberalismo e suas implicações na realidade brasileira. Sempre com uma fartura de documentação, Teixeira Gomes estuda a gestação das condições políticas e econômicas ideais para a inserção do Brasil nos planos globalizantes de FHC, ACM e outras siglas.
A leitura de Memórias das Trevas comprova que desta vez o senador Antonio Carlos Magalhães tem todos os motivos para xingar. Afinal é o seu mito, construído com tanto cuidado, que desmorona nas páginas do livro. E a grande curiosidade é que este trabalho de demolição, que parecia mais propício a sair das mãos de um dos jornalistas das grandes capitais teoricamente mais resistentes às pressões carlistas tenha vindo da terra onde é mais forte o poder de ACM.


