Luz sobre a mãe de Édipo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de maio de 2004
Karla Matida<br>Reportagem local 
Jovem mata o pai e se casa com a própria mãe. Notícia das páginas policiais? Não, o fato em questão é uma das tragédias gregas mais conhecidas do mundo ''Édipo Rei'', de Sófocles. Dois mil e quinhentos anos depois, eis que alguém se propõe a jogar as luzes para a mãe, já que até então, sempre se destacou, obviamente, o personagem-título.
''Yocasta'', que o grupo uruguaio La Matanza apresenta hoje e amanhã na Usina Cultural é justamente esse olhar diferenciado para Jocasta, mãe de Édipo, que acabou se suicidando quando se descobriu casada com o próprio filho. ''Mariana Percovich (dramaturga e diretora) deu voz à Jocasta'', explica a bailarina Mariana Gomes, que, ao lado da atriz Elisa Contreras, dá vida à personagem.
Como explicar um monólogo com duas pessoas dividindo a cena? ''Elisa faz o mito da Jocasta, usando o texto de Mariana e eu, vivo a Jocasta mulher, mas no silêncio usando a dança e o movimento'', relata a bailarina. ''O espetáculo tem uma partitura corporal. A música é muito importante e marca o ritmo'', completa.
''A minha voz serve de música para a Mariana e eu sinto ela se movimentando'', conta Elisa. A montagem uruguaia, que estreou em Montevidéu em julho do ano passado, usou a cenografia para transformar o palco em pequenos quartos, divididos em três níveis por onde as duas se movimentam paralelamente e, ao longo dos 45 minutos, só se encontram uma única vez. ''A Jocasta mulher que eu interpreto é a mulher contemporânea com todas as angústias de ser mulher, amante, esposa e mãe'', diz a bailarina.
A montagem não trata de uma época específica na vida da mãe de Édipo. ''Não é algo contínuo'', explicam Mariana e Elisa, que avisam que são dois finais diferentes. ''O mito não morre'', diz a bailarina.
Grupo de teatro independente, o La Matanza (a matança) tem esse nome por conta do espaço nada convencional que utilizam, um antigo frigorífico em Montevidéu. ''No Uruguai não existe lei de patrocínio para a cultura'', conta Mariana Gomes. Por isso mesmo, Elisa Contreras sabe que ''é um privilégio fazer parte da La Comedia Nacional del Uruguay (única companhia a ser patrocinada pelo Estado)''. A diretora Mariana Percovich está em Curitiba, onde estréia amanhã o espetáculo Medeamaterial com o Teatro de Comédia do Paraná, no Guairinha.
Serviço:
- Yocasta La Matanza (Uruguai). Texto e direção: Mariana Percovich. Elenco: Elisa Contreras e Mariana Gomes. Cenografia e iluminação: Waldo Leon. Vestuário: Lucia Mangado. Vídeo-arte: Raúl NuÀez. Técnica corporal: Martín Inthamoussu. Assistência técnica: Alejandro Roquero. Assistência de direção: Cecilia Canessa. Produção: Gabriela Simone.


