Alguns períodos históricos, aqueles pedaços do tempo que ganham nome e data marcada, têm a sorte de receber atenção especializada de um ''cuidador'', persistente e apaixonado. O professor Edgard Carone, que morreu em 27 de janeiro, foi um desses zeladores da memória que escolhem uma fatia da História para tomar conta. ''A República brasileira'', até 1964, foi o objeto de sua plena dedicação. O vínculo de Carone com as façanhas, grandezas e misérias de ''dominadores e dominados'' nas primeiras sete décadas da República começou em 1965, com a publicação de ''Revoluções do Brasil Contemporâneo'', 1922/1938 e seguiu, em trabalho constante, ininterrupto, até ''Socialismo e Anarquismo no Início do Século'', de 1997.
Nos primeiros anos desse caminho, tomou forma o projeto do ex-professor da USP de encontrar, analisar e tornar público o conjunto de documentos que expunham o jogo de forças do período republicano. Esse projeto se transformou em oito volumes da coleção ''Corpo e Alma do Brasil'', editados pela Difel desde o fim dos anos 60 até meados dos 80. Expor as contradições de uma República em que todos falavam de democracia, sem praticá-la, de Constituição, sem obedecê-la e de ''contrato social'', sem reconhecer que a maioria não fazia parte dele, era uma espécie de objetivo maior desses trabalhos. A professora Emília Viotti da Costa encontrou a expressão certa para definir a vontade de Carone de ordenar essa teia de contradições: ''Estabelecer um roteiro para os que vieram depois dele.''
Três vertentes compõem a obra do professor Carone. A mais conhecida é que cuida da história política, econômica e social do período, iniciada com a publicação do ''A República Velha I - Instituições e Classes Sociais'', a primeira do ciclo de obras de análise documental que vai até o ''A República Liberal'' (1945/1964). A sistematização dos registros da forma de ação e de interpretação da realidade do pensamento de esquerda é outra etapa do esforço historiográfico do ex-professor da Unesp. A terceira paixão foi entender as matizes do pensamento industrial no Brasil. Carone, por exemplo, selecionou os textos e fez as notas do clássico da coleção Brasiliana, ''Evolução Industrial do Brasil e Outros Estudos'', de Roberto Simonsen, entre outros trabalhos nessa área.
''A periodização proposta mostra a correlação das forças sociais que dão substância à luta política'', lembrou o diretor da coleção ''Corpo e Alma do Brasil'', Fernando Henrique Cardoso, na orelha do ''A Republica Velha II - A Evolução Política''. Talvez, o aspecto mais relevante da forma de ''fazer História'' de Carone seja mesmo seu modo todo particular de fazer cortes no tempo, de fazer escolhas de periodização. Fernando Henrique também chamou a atenção para o fato de que a reconstrução de processos globais ''sem destruir a particularidade dos fatos'' era o método de análise que marca o ''historiador arguto''. Carone desenvolveu ''fórmula'' própria para identificar, assimilar importância e destacar o que chamava de ''antagonismos''. Para Antonio Candido, o método de Carone ''baseia-se na combinação do documento posto ao alcance do leitor com a narração dos fatos e sua análise''. Ao definir qual documento vai iluminar, destacar, analisar, o historiador não está apenas fazendo uma escolha; o que se revela nessas opções é uma ''visão de mundo''. Quando a professora Emília Viotti afirmou que a obra de Carone era ''roteiro'', ela pretendeu chamar atenção para algo maior do que a rotina do pesquisador com o simples manuseio honesto das fontes históricas.
A chegada do marxismo ao Brasil e as idas e vindas do movimento operário foram outras preocupações constantes de Carone. A compilação de documentos desses temas pretendiam tanto compreender a evolução do pensamento de esquerda - olhados por ''lente'' bem específica - como tornar mais conhecidas certas curiosidades, como a descrita em ''Classes Sociais e Movimento Operário'', publicado em 1989, que reproduz, por exemplo, a longa discussão da ''questão maçônica'' nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro.
Com idêntica atenção, o ex-professor da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas investigou a relação entre indústria e mercado interno no período republicano. O papel de Roberto Simonsen como o ''teórico da ligação entre industriais e governo'' foi também objeto de olhar cuidadoso de Carone que chamou de ''acontecimento revolucionário'' a primeira vez em que industriais paulistas ''frequentaram'' o palácio de Vargas, destacando: ''Como a estatização era premente, por diversas e sérias razões a ligação entre industriais e governo era essencial.'' Como se vê, certas idéias e interpretações têm sólidas raízes em certas áreas da esquerda.
Um cuidado especial de Carone era o de mencionar os lugares e agradecer às pessoas que o ajudavam em suas pesquisas. Porém, em alguns desses agradecimentos é possível ler: ''A maior parte dos livros recenseados pertence ao autor.'' Nada ainda se sabe sobre o futuro dos livros que ocupavam todas as paredes possíveis do apartamento de Carone em Perdizes, uma parte apenas de seu acervo. Preservá-los, franqueando acesso aos interessados, seria a melhor forma de homenagear quem exerceu o ofício de historiador com tanta tenacidade.