Marcos Palmeira ainda estava de "ressaca" das artimanhas de Sandro, o malandro arrependido que interpretou em "Cheias de Charme", quando foi chamado para "O Canto da Sereia", microssérie de quatro episódios que a Globo exibe a partir de terça-feira. "O Sandro foi um personagem que me deu muitas alegrias. Estava meio melancólico com o fim da novela. Mas fui surpreendido pelo Augustão, um cara curioso, que vai desvendado os segredos da história", conta.
Com clima de cinema "noir", "O Canto da Sereia" acompanha os fatos que envolvem a morte da musa da axé music Sereia, de Isis Valverde. A aura de mistério e o flerte da produção com o cinema encantaram o ator e foram fundamentais na hora de acertar sua participação no projeto, dirigido por José Luiz Villamarim. "Eu gosto da ideia de fazer cinema na tevê. Tudo fica mais intenso e visceral. Desde a preparação, passando pelos ensaios e pela equipe", valoriza.
Por influência do pai, o cineasta Zelito Vianna, o ator carioca começou a atuar aos 5 anos de idade no longa "Copacabana Me Engana", de 1968. Hoje, aos 49, Palmeira orgulha-se da carreira que construiu no cinema, no teatro e, sobretudo, na tevê, onde estreou com uma pequena participação em "Mandala", de 1987. Foi através de personagens rústicos de novelas como "Pantanal", da extinta Manchete, "Renascer" e no remake de "Irmãos Coragem", que ele se tornou conhecido nacionalmente e se destacou como um dos melhores atores de sua geração. "Próximo dos 50 anos, ainda tenho vontade de fazer muitas coisas, mas não tudo. Nessa profissão é preciso saber selecionar e dizer 'não'", acredita.

Você se mostra bem seletivo com seus trabalhos na tevê. O que o atraiu em "O Canto da Sereia" a ponto de fazer você emendar a microssérie com o final de "Cheias de Charme"?
É uma questão de vontade. Eu venho emendando alguns trabalhos desde o ano passado. Fiz dois episódios em formato de telefilme de "Mandrake", na HBO, fiquei nove meses concentrado em "Cheias de Charme" e os últimos dois meses me preparando e gravando "O Canto da Sereia". São três projetos que eu não conseguiria deixar de fazer. Estava cansado depois da novela, mas a oportunidade de voltar a trabalhar com o José Luiz Villamarim e o perfil do personagem me fizeram aceitar na hora. Além disso, é mais uma boa oportunidade de fazer cinema na tevê.

Como assim?
O livro do Nelson (Motta) tem uma pegada bem cinematográfica. Foi adaptado pelo George Moura, Patrícia Andrade e Sergio Goldenberg, que são roteiristas de cinema. E ainda tem direção de fotografia do Walter (Carvalho), responsável pela fotografia de inúmeros filmes nacionais. É uma produção que tem total diálogo com o cinema desde que foi idealizada. Isso faz diferença nos bastidores e no resultado. Por tudo que foi desenvolvido, me senti fazendo um longa-metragem em 10 semanas.

O início de sua carreira na tevê é marcado por personagens rústicos como os de "Pantanal" e "Irmãos Coragem". Em algum momento você achou que esses tipos poderiam limitar sua carreira?
Ser limitado a um tipo específico é um risco que qualquer ator de televisão corre. Eu não fiquei receoso com isso, apenas me mostrei interessado em fazer personagens que fugissem um pouco desse estereótipo. A parte legal de amadurecer na frente das câmaras é exatamente garantir certa autonomia para aceitar ou recusar trabalhos. Se eu amo atuar até hoje, isso é reflexo das escolhas que fiz ao longo da minha carreira.

Em agosto deste ano, você completa 50 anos de idade, 26 desses dedicados à televisão. Além da autonomia artística, qual balanço você faz desta trajetória?
O que mais aprendi ao longo da minha carreira é que sempre depois de um personagem, vem outro (risos). Uns deixam saudades, outros não. Aprendi a lidar com as oscilações da tevê e acho um privilégio chegar aos 50 anos sendo convidado para tantas coisas legais. E além disso, de bem com o meu corpo e a minha mente. Não tenho medo de envelhecer porque é algo que não tem jeito mesmo (risos).

mockup