LUZ DE CARAMUJO
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de março de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Segundo a lenda, caracóis e caramujos são os melhores contadores de histórias de todo o reino animal. Talvez por andarem lentamente possuam a capacidade de enxergarem os coisas com mais tranquilidade. Ou, quem sabe, por viverem muitos e muitos anos, tenham uma vasta memória.
A verdade é que os caramujos e os caracóis guardam as histórias no interior de suas conchas. Bem protegidas, as histórias não são levadas embora pelos ventos. Não sofrem com as tempestades, nem ressecam com o sol forte, muito menos tremem de frio. Enfim, permanecem guardadas para o resto da vida.
As histórias guardadas por esses animais está em A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo, livro infanto-juvenil da escritora paranaense Josely Vianna Baptista. Lançado pelas Edições Mirabilia, a obra é temperada com belíssimos desenhos de Guilherme Zamoner.
Tudo começa quando duas crianças, Julia e Jerônimo, caminhavam pela praia. Durante o início de uma tempestade, encontram um velho caramujo torturado pela forças das ondas do mar. Recolhem o bichinho e se abrigam numa gruta próxima.
Enquanto esperam a chuva passar, ouvem quatro fantásticas histórias contadas pelo caramujo que já viajou pelos quatro cantos do mundo. Na primeira delas, Sereias Com Asas, o bicho narra uma aventura vivida séculos atrás, quando foi salvo de um mar turbulento por uma sereia de asas, muito diferente das sereias com rabo de peixe que todo mundo conhece.
Em seguida, o velho caramujo conta Um Búzio Macambúzio no Paraíso. Nada mais que a lenda de um búzio muito resmungão que reclamava de tudo. Em seu mau-humor, nada estava bom. Certo dia ouviu falar de um paraíso onde tudo era tranquilo e perfeito, sem novidades, sem movimento.
Sem pensar duas vezes, o búzio fez as malas e colocou o pé na estrada. Quando chegou ao tão falado paraíso, achou tudo uma chatice, não acontecia nada. Não havia nem pôr-do-sol, nem noite, nem estrelas, nem nada. Entediado, refez as malas e voltou para sua antiga ilha louco para ver a chuva acabar com o sol, e o sol acabar com a noite, e a noite acabar com a lua, e a lua acabar com a tarde, e a tarde acabar com o dia, e o dia acabar com a noite, e a noite acabar com o sol, e o sol com a chuva, e a chuva...
Como a chuva não parava, o velho caramujo emendou a terceira história: O Rinoceronte Punk de Durer. O caso de um artista chamado Albert Durer que desenhou um rinoceronte sem nunca ter visto um rinoceronte na vida, nem em fotografia. Imaginação foi a tinta utilizada.
Com a chuva diminuindo, o caramujo teve tempo de contar a última história antes de seguir caminho pelos sete mares: História Maravilhosa de um Coro de Corais. Apresentando a lenda da mitologia grega de Medusa, a mulher que tinha cabelos de serpentes, revela o mito da origem dos corais nos oceanos.
A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo é uma obra rica em referências, uma verdadeira teia traçada nas mais variadas direções. Como se a concha fosse um poético vitral multicolorido, e o caramujo um fiel seguidor da tradicional arte dos contadores de histórias.
Ao que tudo indica, o Velho Caramujo logo voltará para apresentar novas histórias pelas mãos de Josely Vianna Baptista. Na espera, o jeito é dar ouvidos aos caracóis e caramujos que atropelamos desatentamente no dia-a-dia.
A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo - de Josely Vianna Baptista, ilustrações de Guilherme Zamoner, Edições Mirabilia (e-mail: [email protected]), 20 páginas, R$ 16,00.


