Fotos: Maranúbia BarbosaTemplo da rainha Hatshepsut, em Deir El-Bahairi, Vale dos Reis, em pleno deserto do SaaraQuem viaja para o Egito sabe que não pode voltar sem conhecer Luxor e o Vale dos Reis. As obras egípcias mais conhecidas em todo o mundo estão nesta região. Ainda complexidade dos monumentos. Qualquer sacrifício será bem recompensado.
Em Luxor, os holofotes estão voltados para uma atração especial. Uma tumba famosa, a de um faraó nem tão importante assim, mas que entrou para a história como a única que resistiu à pilhagem dos saqueadores. Seu nome: Tutankamon, faraó do Novo Império, cerca de 1360 a.C., descoberto em 1922, pelo arqueólogo inglês Howard Carter, no Vale dos Reis, 700 km ao sul do Cairo. Os fabulosos tesouros do faraó-menino, inclusive sua máscara mortuária em ouro puro, podem ser vistos no Museu Arqueológico do Cairo. Lá também estão as vestimentas de Tutankamon, assim como camas, cadeiras, cetros e outros objetos que faziam parte de seu cotidiano.
O Museu Arquelógio do Cairo possui um acervo impressionante de relíquias do Antigo Egito, entre elas, O Escriba, pequena estátua famosa pela expressão de seu rosto. Múmias, sarcófagos, jóias e estátuas fazem a festa de egiptólogos e turistas de todo o mundo.
O majestoso templo de Karnak e a avenida das esfinges com cabeça de carneiro
No coração do Saara O Vale dos Reis fica encravado nas rochas, no coração do Saara, onde a claridade é surpreendente e a falta de umidade excede seu limite. Compreende-se que as tumbas estejam tão bem conservadas em razão da adversidade do clima. O que mais causa sensação é a decoração luminosa das paredes, a céu estrelado no teto, as pinturas de barcos no Nilo, aves, papiros e hieróglifos, delicadas obras de arte executadas por artistas anônimos. São mais de 40 tumbas descobertas até agora, mas ninguém duvida de que o deserto esconde muito mais enigmas do que aparenta.
Assim que os faraós chegavam ao poder davam início à construção que os transportava à eternidade. Tendo em vista tamanho empreendimento fez-se necessário uma impecável organização que lançou as bases para a civilização que seria célebre até aos dias de hoje. Foi preciso uma infra-estrutura perfeita para se transportar rochas para as pirâmides e comida para os trabalhadores. No que o rio Nilo teve papel vital.
Não é exagero repetir que o Egito é um presente do Nilo. quando se percorre o espaço aéreo egípcio vê-se apenas duas paisagens: o implacável deserto do Saara e o rio, como uma artéria fertilizando a areia. Ao longo de suas margens estende-se uma pequena faixa verde, onde, disputando lugar com a agricultura de subsistência crescem as típicas tamareiras.
Vista de Luxor, uma das realizações arquitetônicas mais perfeitas do Novo Império. O outro obelisco que flanqueava a entrada do tempo está hoje na Praça da Concórdia, em Paris
Papiros e lotus A cidade atual de Luxor, às margens do rio Nilo, sul do Egito, localiza-se nas imediações da antiga Tebas dos faraós. Abriga um impecável conjunto arquitetônico do Novo Império: o templo do deus Amon, edificado por Amenófis III, ilustre pelas proporções harmoniosas de suas colunas em forma de papiros e lótus, a flor branca aquática que floresce apenas por algumas horas durante o ano e considerada sagrada até hoje. Todo o conjunto se comunicava ao complexo de Karnak por uma avenida de esfinges com cabeça de carneiro, conservadas quase intactas.
Em Karnak, o que chama mais a atenção é a enorme sala hipostílica do santuário de Amon, cujo teto é sustentado por colunas decoradas com cenas históricas e textos religiosos. As paredes exteriores descrevem aspectos de batalhas e feitos gloriosos dos faraós.
No mesmo Vale dos Reis, aproveitando uma falésia natural, encontra-se o sítio arqueológico de Deir El-Bahari e o templo funerário da rainha Hatshepsut, que comporta terraços sucessivos de indescritível beleza, ligados por uma rampa e ladeados por pórticos. Hatshepsut esteve no poder por 23 anos, proclamando-se filha natural do próprio deus Amon. A imponência do templo é indescritível, principalmente por encontrar-se fincado nos paredões de pedra do Saara.
O maior de todos os faraós egípcios foi, sem dúvida, Ramsés II, que reinou entre 1301 e 1235 a.C. Notável empreendedor, em seu reinado o país prosperou economicamente e conquistou o apogeu. Ramsés II construiu inúmeros monumentos igualmente formidáveis, dentre os quais destacam-se as colunas de Karnak e o de Abu Simbel, esculpido no arenito rosa, representando o faraó divinizado e sua esposa Nefertari. A Unesco patrocinou o deslocamento dos santuários para um nível mais alto do Nilo, quando da construção da barragem de Assuã.
Arte e arqueologia Depois da morte de Ramsés II em 1194 a.C., seus sucessores não foram felizes em suas admnistrações, dominados pela corrupção de burocratas, o que enfraqueceu o poder central. O Egito conheceu a decadência e foi dominado por vários povos. Os árabes chegaram em 642 da era cristã, e de lá para cá implantaram sua cultura definitivamente. A presença árabe pode ser conferida na Cidadela e Mesquita do Sultão Ali, na arquitetura típica, e de modo especial, no Bazar Khan El Khalil, onde são vendidos jóias de prata, objetos dos artistas locais, além de especiarias exóticas. Há também sinagogas e igrejas coptas, que professam o cristianismo ortodoxo.
O Egito de hoje não possui o mesmo esplendor de outrora. Como qualquer metrópole de Terceiro Mundo, apresenta inúmeros problemas sociais, que podem ser conferidos pela pobreza das pessoas nas ruas, falta de saneamento básico e de moradia. Somente num cemitério da cidade moram cerca de 30 mil pessoas, sem as mínimas condições sanitárias.
O Nilo não transporta mais blocos de pedra para concretizar sonhos de governantes, mas continua essencial para a vida no Egito. É dele que vem a água de beber e de irrigar. Dá pena ver em alguns pontos o lixo boiando nas margens, mas todos esperam que ele sobreviva.
Ainda assim, uma viagem ao Egito é fascinante. O país é citado desde os tempos bíblicos, onde viveu Moisés, para onde José foi levado quando seus irmãos o venderam. Berço de muitas civilizações, o Egito de Cleópatra e seus amantes, dos hieróglifos, das pirâmides, esfinges e do incansável Nilo continua tão misterioso como no tempo dos faraós.
Conhecê-lo é um privilégio para quem aprecia cultura, arte e arqueologia. O faraó não mais vive, acabou-se o encanto de todas as maldições, mas sua presença é tão marcante que ao caminhar pelo deserto, miragem que lhe parece, você pode vê-lo, guardião de sua pirâmide, com seus grandes olhos pintados de ébano.

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