Londrina fechou o sorriso ontem, no começo da tarde. Por volta das 14 horas, morreu Ricardo Otelo Queirolo, o amado palhaço Picolino que provocou tantas gargalhadas por conta de suas traquinagens. O corpo do artista está sendo velado na capela do cemitério Parque das Oliveiras e será sepultado hoje, às 10h30. A causa da morte do artista foi uma septcemia decorrente da retirada de uma vesícula supurada. A operação aconteceu na madrugada de segunda-feira, no Hospital Evangélico, onde Ricardo Queirolo foi internado às pressas no domingo à tarde. Ele havia completado 80 anos no último dia 30 de janeiro. Deixa a viúva Doroti Cury, os filhos Ricardo Irineu Queirolo Neto e Doroti Cury Queirolo Pinto, seis netos e quatro bisnetos.
O nome Ricardo Queirolo era apenas uma formalidade, já que ele gostava mesmo de ser chamado de Picolino. ''O Picolino é um vivaldino. É um personagem que só me honra'', disse ele à Folha2, na véspera de apresentar ''Picolino e os Cangaceiros'', seu mais recente espetáculo, durante o Filo 2003. Bem-humorado sempre, ninguém ao certo sabia onde começava o Ricardo e terminava o Picolino, ou vice-versa. O fato é que ninguém resistia às suas piadas, caras e bocas.
Nascido em São Paulo, Ricardo Picolino Queirolo era filho e neto de artistas a família Queirolo tem mais de um século de tradição circense. A primeira aparição em cena aconteceu aos sete anos de idade acompanhando a mãe Elvira, malabarista. Aos 18 anos viu que sua vocação era o sorriso e passou a atuar como palhaço o nome era Espoleta.
Decisão tomada, nunca mais Queirolo deixou ninguém com o sorriso encruado. ''Londrina está chorando com a gente. É uma grande tristeza. Tenho certeza que ele vai deixar muitas saudades no coração das pessoas. Meu avô deixou para nós uma grande lição de vida, honestidade e luta'', disse a neta Jacqueline Queirolo, que falou em nome da família.
O personagem Picolino, que o eternizou, ''nasceu'' em 1964 durante o programa de televisão que apresentava na extinta TV Coroados (canal 3), em Londrina. A criançada fazia de tudo para vê-lo pessoalmente até matar aulas valia para uma geração de fãs hoje formada, em sua grande maioria, por profissionais liberais. As crianças de hoje ainda ouvem as histórias e estripulias que esse doce palhaço aprontava, tudo repassado pelos pais.
Um de seus seguidores é o ator e humorista Lázaro Câmara que, quando adolescente e estudante do Colégio São Paulo, certo dia telefonou para Queirolo. ''Telefonei e disse: 'quero ser palhaço'. E ele falou: 'ligou para o lugar certo'. Sou cria dele. Se estou no mercado atualmente é por influência do Picolino'', diz Lázaro Câmara.
O telefonema rendeu um encontro que possibilitou a oportunidade de trabalhar junto com seu ídolo. A dupla, chamada Picolino e Biribinha, atuou durante 20 anos de 1979 a 1999 e atuou em programas de televisão e apresentações em Londrina e várias cidades da região. ''Cada viagem que fazíamos era uma aventura. Íamos rindo e voltávamos rindo'', lembra Câmara. ''Foi um grande professor. Ele foi o ponto de partida na minha carreira'', complementa.
Nos últimos quatro anos, Ricardo Queirolo se dedicava exclusivamente a repassar os conhecimentos de artista cômico a um grupo de jovens atores londrinenses, através do seu ''Cirico de Palhaço do Picolino'', formado em 1999. No mesmo ano, estrou espetáculo homônimo. Em 2001, veio ''Picolino e os Fantasmas'' e, no ano passado, ''Picolino e os Cangaceiros'', que foi escolhido para integrar a grade de programação do 36º Festival Internacional de Londrina.
Com o mesmo grupo, estava começando a preparar a montagem de ''Picolino, Aprendiz de Sapateiro'' que iria estrear ainda neste ano. Detalhe: além de atuar, todas os espetáculos foram dirigidos e roteirizados por Ricardo Queirolo. ''Era uma pessoa extraordinária, uma estrela de brilho maior. Humilde, tinha vontade de ensinar o que aprendeu às pessoas. Nossa convivêncuia foi espetácular. Enfim, foi um grande mestre da arte cômica e cênica do Brasil'', disse Maria Amélia Melo, integrante do grupo do qual participaram, entre outros, o ator Marcos Martins, hoje integrante da consagrada Armazém Companhia de Teatro
Maria Amélia diz que o grupo há tempos vinha pensando em procurar as autoridades locais para viabilizar um museu ou espaço destinado à difusão da arte de Picolino. Taí, uma boa idéia! Homenagem justa a um dos mais importantes homens da cultura londrinense cujas vida e obra foram reconhecidas pela Câmara Municipal em 12 de novembro de 1998, com o diploma de Cidadão Honorário a iniciativa da então vereadora Elza Correa foi acolhida por unanimidade pela Casa de Leis.
A partida de Ricardo Picolino Queirolo não teve graça nenhuma. Nenhuma!!

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