Luto na música sertaneja
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terça-feira, 23 de junho de 1998
Antônio Mariano Júnior 
É aquela velha história: dois rapazes de origem humilde que depois de muita labuta conquistaram fama e fortuna. E com uma musiquinha, a tal de Entre Tapas e Beijos. O ano, 89. Com refrão fácil, daqueles em que é preciso muita imunidade musical para não ser contaminado, fizeram brasileiros e brasileiras cantarolarem e assoviarem pela vida afora.
E o Brasil, que àquela altura do campeonato já se revelava pseudamente country e verdadeiramente brega, passou a idolatrar os irmãos goianos Luiz José Costa e Emival Eterno Costa.
Em 90, veio outro grande sucesso que arrebatou dials das rádios e corações de fãs - Pense em Mim. Pronto. Era a cereja que faltava no bolo: a dupla começava a ser devorada ferozmente por mídia e multidão. Foram quase 2,5 milhões de cópias, disco duplo de diamante.
A partir daí, os irmãos foram emplacando sucessos atrás de sucessos, subiram e desceram de palcos de todo o território nacional e até no exterior, ganharam muito dinheiro e ajudaram seus colegas de estilo a responder às ácidas críticas sobre o estilo sertanejo prafrentex que cantavam.
Ao todo, Leandro e Leonardo gravaram 11 discos, entre eles um em espanhol, em 95. Juntos, venderam mais de 10 milhões de cópias. O próximo trabalho, já gravado, deve sair até o final de julho e consequentemente vai vender muito, mas muito mesmo. Por dois motivos. Primeiro, que os dois sempre venderam em média um milhão de cópias por lançamento. O segundo é que a prematura morte de Leandro certamente há de comover compradores que se tornam fãs na última hora.
Independente do estilo e do questionável repertório, o fato é que como dupla Leandro e Leonardo fizeram uma trajetória artística brilhante. De agricultores em Goianápolis - plantavam e colhiam tomates - os irmãos chegaram ao topo das paradas e juntamente com Chitãozinho e Xororó mais Zezé di Camargo e Luciano, formavam a santíssima trindade da música sertaneja atual.
O nome da dupla foi uma espécie de homenagem aos filhos gêmeos de um casal amigo. Diz a lenda que houve uma disputa acirrada para saber quem seria quem. Uma vez decidido que José seria Leandro e Emival, Leonardo, pé na estrada. Antes do estouro nacional, cantaram em bares e festas de rodeios de Goiás. O primeiro lugar que cantaram: a boate Canta Viola, em Goiânia. A música: Sessenta dias apaixonados. Era o primeiro emprego fixo com um salário mensal de quatro salários mínimos.
Entusiasmados e estimulados com o sucesso regional, resolveram gravar o primeiro disco com ajuda de uns e outros amigos. Foi em 85. Se comparado à quantidade que normalmente vendem, poderia se dizer que o primeiro trabalho vendeu meia dúzia de cópias. Entenda-se por meia dúzia 150 mil cópias, o mesmo que vende em média, por exemplo, Milton Nascimento ou o triplo do quenormalmente Nana Caymmi emplaca a cada lançamento.
Os números, entretanto, atraíram a atenção da extinta gravadora 3M que, em 86, resolveu apostar nos meninos. Mas foi a partir de 89, com Entre Tapas e Beijos, que a coisa toda mudou de figura. O disco com a música vendeu 1,5 milhão de cópias. Da agenda praticamente vazia, passaram a fazer uma média de 20 shows mensais.
Seus passes passaram a ser disputados por grandes gravadoras. Chegaram, inclusive, a ganhar um programa mensal na Rede Globo de Televisão, em 91, o que, em outras palavras, significa prestígio mesmo. Mesmo sendo uma dupla do barulho, em termos de mídia, o estilo de vida dos irmãos eram opostos. Enquanto Leonardo fazia questão de reforçar a imagem de gostosão do pedaço, Leandro preferia a discrição. Era discreto tanto em cena quanto na sua sussurrada segunda voz. Detalhes, detalhes. O triste mesmo é que, a partir de hoje, vai ser difícil encontrar palavras para confortar sua imensa legião de fãs. Para essas pessoas, o baque foi violento. Inadmissível. Um pesadelo.


