Morreu ontem, aos 67 anos, em Madri, no Hospital Gregorio MaraÀón um mito do flamenco: Antonio Gades, vítima de câncer, contra o qual lutava havia três anos. Seguindo a vontade do artista a família não fará nenhum ato em homenagem a ele durante o funeral. Antes de morrer, o coreógrafo pediu às suas filhas que transmitissem o seguinte recado aos seus fãs: ''Deixo os meus mais sinceros agradecimentos a todos aqueles que admiraram o meu trabalho e apoiaram a minha obra e de maneira especial a aqueles que acompanharam a última etapa de minha vida.''
Antonio Esteve Rodenas começou a dançar, sem nenhum glamour, como costumava dizer, ''para não morrer de fome''. Nasceu em um província de Alicante, em Elda, em 1936 numa família muito simples, filho de operários. Mudou-se com a família para Madri aos 3 anos, seu pai era um republicano, preso nos duros tempos da Guerra Civil Espanhola. Sem muitas perspectivas, queria estudar, mas não tinha condições. Começou a trabalhar em tenra idade, aos 11 anos como, como garoto de recados em um estúdio fotográfico, foi tipógrafo do jornal ''ABC'' e em vão tentou ser toureiro e boxeador. A dança surgiu como um golpe do destino: uma vizinha o aconselhou a entrar em uma escola de dança.
Meses depois, foi contratado por um agente em busca de bailarinos e, para tentar fugir à sina de acabar como o pai, sendo operário, foi dançar em cabarés. Alguém o viu, percebeu algo de especial nele e o recomendou a Pilar Lopez, grande mestra do flamenco. Um ano depois, em 1960, já era o primeiro bailarino da sua companhia na turnê pelo Japão. Ficou nove anos com Pilar.
Em pouco tempo, fundou sua primeira companhia, no ano de 1964, o Balé de Antonio Gades e, dez anos depois, em Roma, estreou ''Bodas de Sangue'', inspirado em Lorca. Foi a glória, a consagração internacional.
Em Bolonha, no ano seguinte, recebeu a notícia de que cinco amigos, opositores da ditadura franquista, tinham sido condenados à morte. Sem nunca separar sua arte da política, decidiu parar tudo. Ficou três anos afastado, até que companheiros do Balé Nacional de Cuba e Alicia Alonso o convenceram a voltar aos palcos.
Gades sempre expôs suas convicções políticas em sua arte. Cativava o público com suas firmes convicções morais e políticas, construídas em torno de uma lição que ele jamais esqueceu: antes da estética vem a ética. De maneira incansável, Antonio Gades repetiu essa máxima, que aprendeu no início de sua carreira com a sua mestra, Pilar López. ''Pelas minhas veias não corria o sangue da arte. Pelas minhas veias circulava a anemia provocada pela fome'', declarou em várias ocasiões este homem de grande magnetismo. ''Nunca me senti um artista, apenas um simples militante vestido de verde oliva'', declarou ele no último dia 6 de junho quando recebeu do presidente cubano Fidel Castro a condecoração com a ordem José Martí.
Também sempre lutou contra o flamenco para turistas. Não abandonou suas origens, mas soube como ninguém renovar essa dança. Em entrevista para uma turnê do Balé Nacional de Espanha no ano passado, Gades disse: ''Para mim o flamenco é uma religião. Consegui catalisar, pesquisar e estudar várias tendências do flamenco que existiam na época, mas acho que o mais importante foi o resgate de várias danças do folclore espanhol. Meu maior mérito foi dar unidade a todo esse tesouro vindo de várias regiões. Tudo o que fiz veio de muito estudo, muita pesquisa e muito sofrimento criativo.''
Depois da trilogia de filmes realizados com o cineasta Carlos Saura, o flamenco nunca mais foi o mesmo. ''Bodas de Sangue'' (1982), ''Carmem'' (1985) e ''Amor Bruxo'' (1986) eternizaram essa dança espanhola. A primeira bailarina cubana Alicia Alonso, consternada, declarou: ''Perdi um grande amigo, uma grande pessoa, um grande artista. Um apoiador da revolução e do povo cubano. Um homem valente na vida e na morte.''

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