Na véspera de completar 81 anos, o escritor Fernando Sabino morreu às 13 horas de ontem, em casa, em decorrência de complicações decorrentes de um câncer no fígado. Do grupo de quatro mineiros e amigos inseparáveis que se destacaram na literatura durante mais de quatro décadas Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Helio Pellegrino o autor de ''Encontro Marcado'', ''O Grande Mentecapto'' e ''O Menino no Espelho'', entre outros, era o único que ainda vivia.
Desde que a doença foi diagnosticada, há dois anos, Fernando Sabino pediu para ser tratado em casa. Segundo dois de seus seis filhos, Mariana e Bernardo, o escritor submeteu-se a um bem-sucedido tratamento de quimioterapia, mas há dois meses os médicos constataram uma metástase (proliferação do câncer). Mariana e Bernardo disseram que o pai sofreu muitas dores até a última quinta-feira, quando foi sedado e ficou inconsciente até a morte.
Os filhos disseram que, antes do agravamento da doença, o pai estava trabalhando, mas mantinha segredo sobre o projeto, que não revelava nem para sua editora, a Record. O último lançamento, ''Os movimentos simulados'', foi escrito quando tinha apenas 22 anos e morava em Nova York, mas chegou às livrarias somente este ano.
Os filhos lembraram que o escritor não gostava de falar sobre o polêmico livro ''Zélia, uma paixão'', em que contava de forma elogiosa a história da ex-ministra do governo Collor, Zélia Cardoso de Melo. Sabino costumava dizer que perdeu grandes amigos por causa da biografia de Zélia. Segundo informação da assessoria da editora, Fernando Sabino insistia em um desejo: que não fossem lançadas obras póstumas. Por isso, em 2000 escreveu a autobiografia ''Livro aberto'' e passou a organizar as cartas que enviou a amigos ilustres. Desta seleção, saiu o livro ''Cartas perto do coração'', reunindo a correspondência com Clarice Lispector, ''Cartas na mesa'', com os amigos Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, e ''Cartas a um jovem escritor e suas respostas'', com Mário de Andrade.
Embora preferisse o tratamento caseiro, em setembro passado Fernando Sabino passou três dias internado no Casa de Saúde Pinheiro Machado, para tratar uma desidratação. Foi liberado antes do tempo previsto pelos médicos, porque respondeu bem ao tratamento.''Era um homem austero, discreto, modesto. Com Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Helio Pellegrino, marcou um tempo na literatura e na mineiridade. Estou chocadíssimo'', lamentou o amigo de mais de 40 anos e companheiro de mineiridade José Aparecido de Oliveira. ''Nessa altura da vida, fico me poupando muito de ir a enterros porque podem se enganar e achar que sou eu que tem que ser enterrado'', brincou Aparecido, de 75 anos, resgatando o bom-humor dos amigos mineiros.
Sabino vivia sozinho em seu apartamento na rua Canning, em Ipanema, desde que se separou da mulher, Lígia Marina de Moraes, em 1994. Na hora da morte, o escritor estava cercado por todos os filhos, Bernardo, Mariana, Verônica, Pedro, Leonora e Eliana, pelo neto Alexandre, filho de Virgínia, já falecida, pelo irmão Antônio e pelas secretárias, Fabiana e Isabel.
O corpo de Fernando Sabino será enterrado hoje, às 11 horas, no cemitério São João Batista. O epitáfio é de autoria do próprio escritor: ''Aqui jaz Fernando Sabino, nasceu homem, morreu menino.''

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