Depois da temporada de recesso, a sala alternativa da Casa de Cultura recompensa o público da cidade com um documentário de enorme valia cultural: “Lumière! A Aventura Continua”, o segundo opus proposto e consumado pelo cinéfilo inato tornado cineasta, o francês Thierry Frémaux, diretor perene do Festival de Cannes e uma alma possuída pelo cinema.

Há quase uma década, ele já havia nos presentaeado com “Lumière! A Aventura Começa” que, por meio de uma série de filmes com os protagonistas-título, demonstrou a importância da contribuição dos irmãos Auguste e Louis Lumière para o cinema, uma contribuição que foi muito além da mera invenção da câmera.

Agora, “Lumière! A Aventura Continua” é outro presente inestimável porque de um calibre superior. Composto por mais de cem filmes da iluminada fraternidade, quase todos com qualidade de imagem impecável – a Fundação Lumière (criada e dirigida por Frémaux em Lyon, não por acaso onde nasceu o cinema) faz um trabalho notável de preservação e restauração de sua obra –, o documentário é deslumbrante.

Filme deve ser visto também como um poema, uma homenagem à obra dos irmãos Lumière cujas imagens falam por si só
Filme deve ser visto também como um poema, uma homenagem à obra dos irmãos Lumière cujas imagens falam por si só | Foto: Divulgação

Thierry Frémaux apresenta o estilo dos irmãos: suas técnicas de filmagem, abordagem, temas e narrativa. Ele demonstra que eles foram pioneiros fenomenais que influenciaram mestres como Ozu, Ford e Visconti. Sua obra é imensa, de uma beleza requintada e merece ser vista por muitos motivos; o primeiro, e muitas vezes negligenciado, é sua qualidade cinematográfica.

Frémaux é versado em história do cinema e nos clássicos, o que lhe permite selecionar imagens que inspiraram sequências em grandes filmes (é bom não esquecer que esses filmes tinham apenas 50 segundos de duração). “Lumière! A Aventura Continua” deve ser visto e apreciado também como um poema, uma homenagem à obra dos irmãos — àquilo que filmaram e à sua escola — e à época que retrataram.

Thierry Frémaux é o diretor de "Lumière! A Aventura Continua"
Thierry Frémaux é o diretor de "Lumière! A Aventura Continua" | Foto: Divulgação

OS GENIAIS IRMÃOS LUMIÈRE

De fato, o aspecto fundamental dos irmãos Lumière, esses documentaristas geniais, é que foram os primeiros a mostrar o mundo ao mundo. E fizeram isso com uma qualidade e beleza difíceis de superar. A voz de Frémaux não precisa se esforçar para convencer o espectador do valor de suas afirmações; a imagem fala por si só. Não é preciso ser especialista ou entusiasta desse cinema para se emocionar até às lágrimas assistindo a este documentário.

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Para Frémaux, os irmãos Lumière, especialmente Louis, representam o cinema em sua melhor forma. Não se trata de mera homenagem arqueológica. Para ele, Lumière reencarnaria no realismo de Rossellini e Georges Méliès na fantasia de Fellini. Dos mais de 2.000 filmes que realizaram, todos, exceto 17, sobreviveram. O documentário termina com uma refilmagem de “A Saída da Fábrica” (Leaving the Factory), de Francis Ford Coppola, no mesmo cenário e repetindo o enquadramento, mas com trabalhadores da nossa época, entre os quais se destaca o cineasta francês Bertrand Tavernier, uma homenagem dentro de outra homenagem, um final brilhante para um filme-legado imenso e encantador, que Frémaux restaura com paixão, rítmo e inteligência.

O filme vai estar em cartaz no Cine Ouro Verde nos dias 23, 24 e 25 de fevereiro duas sessões às 16h e 19h30. As sessões que estavam programadas para esta semana foram adiadas em função de problemas técnicos, conforme nota da Divisão de Cinema e Vídeo da UEL.

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