Um dos patronos do rock brasileiro dos anos 80, Lulu Santos, 47, poderia ter inaugurado o projeto ‘‘Acústico MTV’’. No entanto, sua vez só está chegando agora, quando o formato conta com seis anos de existência aqui no Brasil e já estancou lá fora. O programa será exibido hoje pela MTV, às 23h30.
Ele justifica a demora: ‘‘Não houve premeditação. Eu estava fazendo outras coisas, meus discos eletrônicos. Não caberia naquele momento’’.
O CD vem num padrão que foge do habitual: o ‘‘Acústico’’ de Lulu Santos será vendido como álbum duplo ou em dois volumes separados. Das 28 faixas, cinco são inéditas, e se repetem nos dois volumes da versão ‘‘quebrada’’.
Lulu diz desacreditar que esteja aderindo a um clichê. ‘‘Quem sabe o meu dê um fôlego ao formato. Tentamos soar bonito, com coisas pouco usuais, sem usar recursos de outros acústicos.’’
Havia clichês do formato a serem evitados? ‘‘O negócio dos Titãs, com orquestra, funcionou tão bem que fica como referência do que não deve ser feito.’’ E parâmetros a serem perseguidos? ‘‘O acústico de que gosto é o da Bjöork. Tem uma orquestração muito peculiar, eu queria que o meu tivesse essa estrutura de dance, de tecno. Ficou vigoroso, não é anêmico, violãozinho.’’ Se em 1998 Lulu Santos formou um grupo de rock (Jakaré) e chegou a planejar um disco ao vivo baseado em versões pesadas de suas músicas menos bem-sucedidas, agora ele repele aquele momento em prol dos hits relidos.
‘‘O show do Jakaré era infeliz. Acabei a temporada arrasado. Era neurótico, masturbatório, auto-referente. Prefiro mil vezes ‘Janela Indiscreta’ (inédita do ‘‘Acústico’) a qualquer coisa do Jakaré.’’ Ele continua: ‘‘Tenho gravado, eu sei que era ruim. É fácil para mim falar, porque aquilo não existe. É como o Vímana’’. Refere-se ele ao grupo de rock progressivo que integrou nos 70, com Lobão e Ritchie, e que deixou só duas faixas gravadas.
Ele esbraveja: ‘‘Pode ser antropologicamente interessante, mas são coisas que não existem. Não quero enfiar a cabeça pelo rabo, não quero viver do passado’’. Ora, mas então ele tem de explicar o projeto revisionista do ‘‘Acústico’’, bem como a canção inédita ‘‘Made in Brazil’’, cuja letra revisa o rock nacional.
‘‘É uma perspectiva histórica. Não é uma crítica à MPB. A ironia vai em outro sentido, de ser uma batida disco falando de rock, hip hop, reggae. Se é revisionista, por outro lado há ‘‘Esta Canção’, fresquíssima, escrita em cinco de maio.’’
E a MPB não anda se relendo em demasia com acústicos e discos ao vivo? ‘‘Não é excesso. Vivemos num país que precisa de releitura. Precisaríamos fazer a psicanálise do Brasil pós-64, tiras do sistema para compreender.’’ Responde, então, se o ‘‘Acústico’’ seria sua contribuição para tal psicanálise: ‘‘Não sei se ofereço formalmente uma contribuição. Estou mais focado nas inéditas, nas cinco canções que para mim são das melhores que já fiz’’.

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