Não existe lugar mais confortável que o meio. Nele, desaparecem a ansiedade do começo e a tristeza do final. O meio, tão despercebido, é o tema do novo disco de Luiz Tatit. Dono de um estilo próprio, desenvolvido ao lado do irmão Paulo Tatit, Luiz desenvolveu – ou explicitou – uma intrínseca ligação entre texto e melodia. A relação é tão tênue que muitas vezes seu canto soa como conversa.
Na verdade, a preocupação de Tatit como compositor passa pela palavra e sua acomodação musical, um cimento muitas vezes ignorado. Melodia e conversa, tão próximas, provocam uma ilusão de simplicidade. Luiz Tatit se formou em Linguística e também em Composição pela USP. Fez mestrado e doutorado enfocando a semiótica e a canção popular.
As características da fala e sua acentuação melódica já estavam presentes nos trabalhos do grupo Rumo, desenvolvidos a partir de 1974. Em 1988, com o disco infantil ‘‘Quero Passear’’, o Rumo recebeu os prêmios Sharp de Melhor Disco e Melhor Canção Infantil.
‘‘O Meio’’ vem condensar essa trajetória. Lançado pela Dabliú, o disco não dispensa o bom humor para mostrar uma temática cotidiana, aparentemente simples, mas que oculta uma teoria consistente. Luiz Tatit une com naturalidade teorias acadêmicas e prática. ‘‘O Meio’’ soa diferente: é conceitual sem parecer. O lucro vai para o ouvinte. O disco não dá ponto sem nó, é cuidadosamente costurado e atrai a atenção – da mesma forma que um bom bate-papo segura o interesse dos interlocutores.
O lançamento – realizado ‘‘oficialmente’’ dia 3 na choperia do Sesc Pompéia, em São Paulo –, reúne amigos do meio musical. Fábio Tagliaferri aparece nos arranjos de cordas e viola de arco. Paulo Tatit toca baixo, violão e ainda assina a produção do projeto. Ricardo Breim comanda alguns teclados, Mário Manga toca cello, José Miguel Wisnik e Suzana Salles cantam juntos, Swami Júnior toca violão e Ná Ozzetti se destaca em canto e composição.
Tatit aproveitou, no repertório, músicas que não entraram no primeiro disco – ‘‘Felicidade’’, de 1997 –, apoiadas em um tripé conceitual formado por ‘‘O Meio’’ (Luiz Tatit), ‘‘Trio de Efeitos’’ (Luiz Tatit/José Miguel Wisnik) e ‘‘Essa é Para Acabar’’ (Luiz Tatit). As três ressaltam, de formas diferentes, as vantagens do mediano.
‘‘‘O Meio’ é uma canção que fala do começo como algo desconfortável, e definiu conceitualmente o disco. Minhas canções tem uma proximidade explícita com a fala, mas na verdade todas as canções têm. Desde a época do Rumo, nossa melodia deixa transparecer a entonação melódica da fala. A canção é mais ligada à fala que à literatura, há uma integração. Em geral, a letra de uma canção não é poesia no sentido tradicional do termo, que tende a ter uma quadratura’’, comenta o compositor em entrevista por telefone.
A proximidade entre teoria e prática de composição amadureceu com o tempo: ‘‘No começo até tinha um paralelismo evidente. A gente fazia quase como uma composição didática, e transparecia aquela teoria. Na década de 80 passou a ser natural, as músicas ficaram mais macias, mais espontâneas, e não deixaram de ter aquela raiz’’.
Mas a entonação natural da fala muitas vezes é repudiada, como se fosse algo a ser evitado. ‘‘Os compositores camuflam essa entonação mais para identificar a canção com a música. Alguns, como Noel Rosa e Jorge Benjor, nunca a esconderam. Outros escondem como se fosse muito feio, mas na verdade eles compõem a partir da fala. Há um recalque da entonação’’, comenta.
Ocupado com atividades acadêmicas na USP, Luiz Tatit não fará turnê de lançamento. Os shows serão fechados com antecedência para não confrontar com os compromissos do compositor, que em março do ano que vem deve encerrar mais um livro. A obra – que ainda não tem editora definida – terá caráter didático e pretende analisar letras de canções com enfoque semiótico. ‘‘O Meio’’ foi lançado pela gravadora paulistana Dabliú.

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