São Paulo, 31 (AE) - O escritor e jornalista Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, pequena cidade da Zona da Mata mineira. De lá, trouxe lembranças de uma infância e juventude típicas do interior: boas amizades, o bate-papo no banco da praça, os primeiros amores. A nostalgia é inevitável. Mas desse tempo vem também frustrações, perdas, mágoas. É esse microcosmo repleto de sentimentos ambíguos, momentos felizes e outros nem tanto que ele transferiu para as páginas do livro "(os sobreviventes)", que será lançado amanhã (01).
A publicação, que reúne seis contos, dá continuidade ao livro anterior de Ruffato, "Histórias de Remorsos e Rancores", de 1998, que recebeu elogios da crítica pela ousadia linguística e facilidade em criar um universo lúgubre, habitado por personagens duros e sombrios que poderiam muito bem estar numa obra de Chekhov. Para Ruffato, os personagens não são necessariamente extraídos de suas lembranças. "É uma obra de ficção, nem reconheço essa Cataguases que eu descrevo; ela aparece nas histórias num sentido mítico", explica o escritor. "É possível que os personagens existam ou talvez não".
O livro de Ruffato é dividido em seis contos ou histórias, como prefere o autor: "A Solução", "O Segredo", "Carta a uma Jovem Senhora", "A Expiação", "Um Outro Mundo" e "Aquário". Em cada história, Cataguases surge de formas distintas, ora no passado, ora no presente. Os personagens trazem consigo a nostalgia, o remorso, as frustrações e a insatisfação do homem com sua condição de ser finito.
Em "Carta a uma Jovem Senhora", Ruffato transporta o leitor a um quarto de hotel de quinta categoria na Avenida São João. Lá, o protagonista relembra, entre goles de uísque e tragadas no cigarro, dos doces tempos da infância em Cataguases. Lamenta a mágoa de ter deixado para trás, 20 anos antes, sua grande paixão (não correspondida). Numa carta, ele narra, viajando entre passado e presente, sua trajetória desde que deixou a cidade natal ainda jovem para trabalhar. "Muitas histórias se basearam em minhas memórias, mas no fundo acho que é tudo ficção", diz Ruffato. Esperança - Nas histórias do escritor, a felicidade ainda é uma utopia. Quase sempre, o que move os personagens é a esperança de dias melhores. Em "Aquário", por exemplo, o protagonista retorna a Cataguases para o enterro do pai. Decide viajar com a mãe para Guarapari, no Espírito Santo, numa tentativa de reaproximar-se da família, esfacelada por desavenças, rancores e uma profunda mágoa com esse pai.
Para Ruffato, a literatura vive em função das impossibilidades do homem. "Como tem essa consciência, a arte busca traduzir isso", analisa o autor. "A arte tem de ser catártica", conclui. Mas não seria um tanto pessimista esse universo cruel, frio e desumando? "É uma visão de mundo particular", responde Ruffato. "Os personagens com que lido são de classe média baixa, vivem numa sociedade injusta e é muito pouco provável que sejam diferentes do que são", explica o escritor.
A preocupação formal e descritiva do texto é uma das principais características desse autor mineiro, admirador de William Falkner ("Um grande escritor, com boas leituras") e Guimarães Rosa ("Menos na linguagem do que na forma"). O cuidado em traduzir a realidade, "vida pequena"- vestígios de influências de Pirandello e Chekhov - , é também objeto de atenção de Ruffato. "É importante nós nos conhecermos", afirma. Serviço - "(os sobreviventes)". De Luiz Ruffato. Editora Boitempo. 184 páginas. R$ 24,00. Lançamento amanhã, no Bar Balcão. Rua Dr. Melo Alves, 150

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