São Paulo, 29 (AE) - O samba de Zé Ketti parece um instântaneo da carreira de Luiz Melodia. "Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando um violão..." Há 26 anos, Melodia vai por aí e amanhã (30) à noite, a bordo de um disco acústico ao vivo, desembarca em São Paulo para reinaugurar a Sala Assobradado do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC. Melodia é um cantor de standards, então é louvável que tenha lançado um disco ao vivo - o primeiro, embora esteja no décimo de sua carreira.
O CD "Luiz Melodia Acústico ao Vivo" é a base do show que o cantor mostra amanhã no TBC, reunindo suas canções reincidentes (como Pérola Negra, Magrelinha, Estácio, Holly Estácio, Dores de Amores e Só) e outras menos exploradas, como o samba de Zé Ketti lá em cima (Diz Que Fui Por Aí), "Maura" (do seu pai, Oswaldo Melodia) e "Cruel" (de Sérgio Sampaio). As canções foram gravadas no Teatro Rival, no Rio, em um show de promoção do disco anterior de Melodia, "14 Quilates" (EMI-Odeon), que ele lançou em novembro de 1997. Foi nesse disco que ele revisitou uma antiga parceria, com Getúlio Côrtes, na música "Quase Fui Lhe Procurar" (também no roteiro do show).
Côrtes é o compositor de "Negro Gato", outro grande sucesso na voz de Melodia. O disco "14 Quilates", base do show
é um tanto subestimado. É um bom disco de Melodia, com uma certa ousadia nos arranjos e sofisticação instrumental - tem seções de cordas, metais, tem samba, rock, funk, tem participações do Barão Vermelho, Jaques Morelenbaum e Márcio Montarroyos. Sua transformação em disco ao vivo acústico deu-lhe um novo formato, mas a seleção de músicas permanece de bom gosto. Pena que Melodia não tenha incluído no roteiro do show a canção de seu pai, Oswaldo Melodia, que gravou em "14 Quilates": "Ser Boêmio". A que canta agora, "Maura", é igualmente bela, mas "Ser Boêmio" (gravada com o apoio de Zé Menezes e Dino 7 Cordas) ficou uma pintura.
Seus músicos no show de amanhã à noite no Assobradado são os de sempre: os guitarristas e violonistas Renato Piau e Perinho Santana, que o acompanham desde tempos imemoriais. Fazer um disco acústico é quase um pleonasmo na carreira de Melodia: ele sempre canta com um violonista, sozinho, num banco ou girando em torno do microfone. Filho de Oswaldo Melodia, sambista evangélico do Morro São Carlos (no Estácio, zona norte do Rio) que o levava a cantar em corais nas igrejas, foi com o pai que Melodia aprendeu as manhas do samba. "Meu pai sempre me dava conselhos, como não tomar cerveja gelada para não estragar a voz e vestir ternos como Jair Rodrigues, para parecer mais sério", diz.
O conselho era sério. Sua casa ficava entre uma igreja e uma fábrica de cerveja. Cresceu ouvindo Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Roberto e Erasmo Carlos e foi bastante influenciado pela Jovem Guarda, no início. Mas também tem suas manhas: um dos músicos que costuma ouvir com mais frequência é o trompetista Chet Baker (1929-1988). Melodia confessa que não é um compositor muito prolixo. Tem seu ritmo muito particular. Nos últimos 7 anos, só gravou um disco com canções inéditas, que é "14 Quilates". Antes, tinha feito um álbum dedicado exclusivamente a covers, "Relíquias", de 1995. No show, deve mostrar uma única inédita, feita em parceria com Renato Piau: "Cuidando de Você", que é dedicada a Gal Costa.
Embora vivendo numa região muito especial no território da MPB - entre a aceitação e o esquecimento voluntário -, Melodia não tem do que se queixar. Sempre é homenageado nos palcos e mesmo fora deles. Gal Costa nunca o esquece nos shows. No ano passado, Zezé Motta montou o show "Invisíveis Cores" só para celebrar o repertório do cantor, interpretando durante duas semanas em Copacabana canções como "Ébano", "Juventude Transviada" e "Começar pelo Recomeço" (parceria dele com o poeta piauiense Torquato Neto). Serviço - Luiz Melodia. Duração: 1h30. De amanhã (30) a sábado, às 22 horas; domingo, às 20 horas. R$ 25,00. TBC - Sala Assobradado. Rua Major Diogo, 315, tel. 3104-5523.

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