Luiz Melodia lança disco com inéditas
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Renato Vieira<br>Agência Estado 
São Paulo - Cheia de Graça foi a escolha perfeita para a abertura de Zerima. Com metais e baixo grooveado, é a faixa que melhor expressa o retorno de Luiz Melodia ao repertório autoral. É samba, soul e dor de cotovelo à carioca ao mesmo tempo. Temperos que são pouco utilizados - em 41 anos de carreira fonográfica, gravou apenas nove discos de inéditas, muito por culpa do outrora poderoso mercado que exigia regravações e o exilou no rol dos malditos. Mas quando a cozinha é aberta, vem um saboroso banquete.
"Eu componho de tudo. Não coloco regras. Vai saindo naturalmente, não penso em fazer um disco com músicas diferentes entre si. E gosto assim", diz o cantor e compositor, que, além de Líber Gadelha, contou com a participação do saxofonista Humberto Araújo na produção do álbum. A presença do músico reflete a predileção pelos sopros como cama para sua música. Melodia lembra de seus trabalhos anteriores, arranjados por Serginho Trombone e Oberdan Magalhães, da Banda Black Rio. Zerima, afirma ele, é uma reconexão com o que produziu em termos de sonoridade. Os parceiros Renato Piau e Ricardo Augusto também reaparecem nos créditos de autoria de algumas faixas.
Nem por isso Melodia deixa de estabelecer contato com uma geração posterior à dele. A cantora Céu é convidada da faixa Dor de Carnaval, mais uma homenagem à sua escola de samba, a Estácio de Sá. Os dois se conheceram quando ela o convidou para participar de Vagarosa (2009), cantando Vira Lata. A retribuição do chamado veio em forma de uma música sobre o sofrimento de quem torce pela agremiação, há anos fora do Grupo Especial do carnaval carioca.
Zerima também passeia pelo clima de gafieira (Vou Com Você), samba-canção (Cura), malemolência do Recôncavo Baiano (Moça Bonita). Na diversidade coesa que perpassa sua obra, o felino mostra que continua com as garras afiadas.
Regravações
Uma das melhores faixas de Zerima é a tocante regravação de Leros e Leros e Boleros, de Sérgio Sampaio, cuja morte completou duas décadas em maio.
A inclusão de Maracangalha foi motivada pelo desejo de "uma levada diferente" para a música de Dorival Caymmi. Ele ainda pescou uma pérola obscura de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, Nova Era.
Se Zerima teve sua base solidificada após um período de convalescença, os versos são os que melhor refletem sua origem. Do novo ao antigo, das parcerias permanentes às novas aproximações, Melodia continua indefinido e indefinível. Não se podia esperar nada diferente de alguém que, em música, já disse que na estrada da vida segue e vai.


